Reconstruindo a autoconfiança e a performance na corrida
Jéssica Fazzio reflete sobre os desafios de retomar ciclos de treino, superar crises de confiança e abraçar novas fases.
Após dois anos com dificuldades para encaixar ciclos de maratona, Jéssica Fazzio compartilha o processo de reconstruir a autoconfiança e a performance. A atleta analisa como substituir a ansiedade pela curiosidade e valorizar as conquistas invisíveis que o relógio não mostra.
Voltar a encaixar uma rotina sólida de treinos após um período de instabilidade é um desafio que vai além da planilha. Quando a rotina profissional e as demandas da vida dificultam a consistência, o retorno aos ciclos intensos de maratona exige, antes de tudo, uma reconstrução da autoconfiança.
A crise de confiança e o medo do acaso
Ficar longe do ápice físico com frequência desperta questionamentos internos incômodos. Mesmo quem já atingiu grandes marcas, como tempos expressivos nos 42 km, pode ser assombrado pela dúvida de se aquelas conquistas foram apenas um momento isolado de sorte ou inspiração passageira que não se repetirá.
Para superar essa barreira mental, o caminho passa por se reconectar gradualmente com os desafios da rua. Trocar o ambiente previsível da esteira por treinos com variação de altimetria e enfrentar treinos longos com ritmos bloqueados reacende a sensação de testar os próprios limites — não a partir do medo de falhar, mas da curiosidade de descobrir onde o corpo realmente está.
O risco da comparação com a versão do passado
Um dos maiores erros ao retomar o volume é a cobrança excessiva baseada em tempos antigos. Na Meia Maratona SP City, por exemplo, o teste de correr próximo de 1h30 serviu como um termômetro sem a pressão do resultado perfeito, revelando que a evolução acontece de forma orgânica quando a mente se desapega da rigidez dos números.
As pausas na trajetória esportiva — sejam por rotina profissional, lesões ou mudanças pessoais — convidam o corredor a aceitar que não é mais exatamente a mesma pessoa de antes. Dar um passo atrás não anula a bagagem acumulada; apenas abre espaço para construir uma nova versão dentro da realidade atual.
As conquistas que o relógio não mede
Ao se preparar para grandes desafios, como a Maratona de Nova York, a maturidade adquirida ao longo de fases difíceis se torna uma ferramenta decisiva. A resiliência, a paciência e a capacidade de lidar com frustrações são ganhos invisíveis que não aparecem nas métricas do relógio e nem nas redes sociais, mas definem a longevidade no esporte.
No fim das contas, a sustentabilidade da alta performance depende de revisitar constantemente o motivo pelo qual se começou a correr. Quando a motivação central está em encontrar força, calma e presença no próprio processo, os tempos e recordes deixam de ser uma cobrança e voltam a ser uma consequência natural da jornada.