Maratona de Chicago: Jéssica Fazzio e a busca pelo sub-3
Após arriscar o ritmo no limite e cravar 3h02 com 12 minutos de RP, maratonista reflete sobre autocobrança e processo.
Na Maratona de Chicago, Jéssica Fazzio decidiu arriscar tudo e largar junto ao grupo do sub-3. Mesmo reduzindo o ritmo nos quilômetros finais para evitar a quebra, ela conquistou um expressivo recorde pessoal de 3h02 e tirou lições valiosas sobre cobrança e a jornada esportiva.
Correr uma maratona no limite da capacidade física exige coragem estratégica e autoconhecimento apurado. Ao alinhar na largada da Maratona de Chicago, a corredora Jéssica Fazzio encarou um divisor de águas na sua trajetória: optar por uma prova segura e confortável para 3h05 ou arriscar o ritmo agressivo desde os primeiros metros em busca do sonhado sub-3.
A decisão estratégica antes da largada
A definição da tática aconteceu a apenas dois dias da prova, em uma conversa direta com seu treinador, Nelson. Com base no volume e nas métricas dos treinos, o técnico foi claro: correr para 3h05 traria margem de sobra, mas buscar o sub-3 exigiria entregar absolutamente tudo, com risco real de faltar energia no terço final. Vindo de duas maratonas com experiências positivas e parciais negativas (split negativo), Jéssica decidiu assumir o risco e largar colada nos pacers de 2h59.
Nas grandes Majors, os marcadores de ritmo atuam com extrema precisão e margem técnica. Logo no início, porém, a sensação de esforço já indicava uma prova completamente diferente da postura conservadora que Jéssica costumava adotar. A intenção era clara: testar onde estava o próprio limite físico e mental.
A leitura de prova no km 28 e o controle da quebra
A resposta do corpo começou a pesar no quilômetro 25. Três quilômetros depois, entre o km 28 e o 30, a fadiga se intensificou e Jéssica tomou uma decisão crucial: deixar o bloco dos pacers se afastar para não comprometer a conclusão da prova. Em vez de quebrar totalmente, ela administrou parciais em torno de 4:20 a 4:25 por quilômetro, com breves oscilações perto de 4:35, e conseguiu recuperar o fôlego no final para fechar entre 4:15 e 4:20.
O cronômetro travou em impressionantes 3h02 — baixando 12 minutos do seu recorde pessoal anterior. A consequência do desgaste extremo foi imediata na linha de chegada: com as pernas totalmente travadas, caminhar de volta ao hotel tornou-se um teste de superação à parte.
"Enjoy the journey": a importância de valorizar o processo
Apesar de bater na trave da marca dos 180 minutos, o sentimento predominante não foi frustração, mas plenitude. Ao se doar integralmente no asfalto, a corredora validou a perspectiva de que o sub-3 virá de forma natural quando a preparação e o dia encaixarem perfeitamente, celebrando o salto gigantesco de performance já conquistado.
A intensidade do ciclo e a cobrança focada exclusivamente em números cobraram seu preço mental, gerando a necessidade de um intervalo de descanso longe dos tênis de corrida após o evento. Como lembrete definitivo de que a obsessão pelo resultado não pode anular o prazer da evolução diária, Jéssica gravou na medalha de Chicago a frase enjoy the journey (aproveite a jornada), reforçando a maturidade necessária para construir grandes marcas no esporte.