O preço da alta performance e o dilema do pós sub-3
Jéssica Fazzio reflete sobre as renúncias para correr abaixo de 3 horas e o desafio de equilibrar ambição e vida pessoal.
Alcançar a marca de uma maratona sub-3 exige um nível de abdicação que vai além de um estilo de vida saudável. No Girls Who Run, Jéssica Fazzio discute os limites da alta performance amadora e a busca por manter a corrida prazerosa.
Alcançar a marca de uma maratona sub-3 é o ápice do desempenho para muitos corredores amadores, mas a jornada cobra uma fatura alta na rotina e nas escolhas pessoais. Em participação no videocast Girls Who Run, do hub Stemma Sports, a maratonista Jéssica Fazzio detalhou as abnegações necessárias para sustentar o rendimento de elite no esporte amador e as reflexões que surgem logo após cruzar essa barreira.
Rotina milimétrica e o nível de abdicação
Quando correu sua primeira maratona, Jéssica vivia outro momento: atuava como analista recém-promovida, era solteira e lidava com menor volume de demandas corporativas. Com o avanço na carreira e a assunção de um cargo de gestão a partir de 2022, as exigências profissionais aumentaram consideravelmente, coincidindo com o início de um relacionamento e ciclos intensos de preparação para grandes provas, como as maratonas de Boston e Berlim.
Atingir o patamar sub-3 demandou uma disciplina que ultrapassa a rotina de quem apenas busca uma vida saudável. Jéssica relata que a preparação impôs controle rígido dos horários de sono, foco estrito na alimentação e o cancelamento quase total de concessões sociais, como tomar vinho com amigos ou sair às sextas-feiras, devido à exigência dos treinos longos de sábado. Durante a preparação para Boston, o consumo de álcool foi zerado, havendo apenas uma pequena flexibilização no ciclo de Berlim.
Qual é o teto e quanto vale pagar o preço?
A consolidação do resultado expressivo levantou um questionamento frequente entre atletas amadores competitivos: qual é o próximo passo? Mirar marcas ainda mais baixas, como sub-2h50 ou sub-2h40, requer uma escalada correspondente de sacrifícios. Jéssica pontuou a crise reflexiva sobre até onde fazia sentido elevar o custo pessoal, principalmente em uma fase em que o trabalho e a vida a dois demandavam presença e dedicação.
A corredora ressalta a importância de manter uma identidade completa, na qual o esporte convive com a carreira e os momentos de lazer, sem que a corrida se torne a única dimensão existente. Abrir mão de outras esferas fundamentais passou a ameaçar o próprio prazer de calçar os tênis.
A conclusão desse processo foi o resgate da leveza. Quando a equação entre esforço e satisfação deixa de fechar, torna-se necessário recalibrar a relação com os treinos: a corrida precisa permanecer prazerosa e fazer sentido dentro da realidade que o atleta escolheu construir.