Logística reversa e combate ao greenwashing no Brasil
Robson Esteves explica como a ABREE reúne 214 marcas em torno da logística reversa, dados auditados e economia circular.
Em entrevista a Bruno Gimenes no Marketing - The Podcast, Robson Esteves, presidente da ABREE, detalha a operação da logística reversa no Brasil. O executivo aborda coopetição entre marcas concorrentes, combate ao greenwashing e mineração urbana.
Robson Esteves, presidente da ABREE (Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos), falou, em conversa com Bruno Gimenes no Marketing - The Podcast, sobre os desafios estruturais, regulatórios e de comunicação da logística reversa no mercado brasileiro. No vídeo acima, Esteves explica como a entidade articula marcas concorrentes em torno do cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos e do combate a práticas de greenwashing.
Trajetória de Robson Esteves e chegada à ABREE
Com carreira construída em operações, cadeia de suprimentos e logística em empresas multinacionais como Volvo, Philips, Samsung, Nortel e Schneider Electric, Esteves relata que o contato prévio com mercados como Suécia e Holanda moldou sua visão sobre sustentabilidade corporativa. A oportunidade na associação consolidou essa bagagem prática em um setor que exige governança compartilhada entre concorrentes diretos.
Criada por fabricantes do setor eletroeletrônico, a entidade atua no custeio e na organização de processos de recolhimento e destinação ambientalmente adequada. Segundo Esteves, "a associação ela é representada por 62 empresas, 214 marcas", estruturando uma operação que atende a maior parte dos produtos eletrônicos comercializados no país.
O que é logística reversa e o papel da ABREE
A logística reversa difere do fluxo linear de distribuição ao estabelecer o caminho inverso do produto após o fim de sua vida útil. A atuação da ABREE concentra-se em equipamentos pós-consumo de uso doméstico, como televisores, celulares e refrigeradores descartados pela população, enquanto resíduos corporativos seguem rotinas fiscais e tributárias próprias do segmento B2B.
O setor é regido pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída em 2010, e pelo Decreto Federal 10.240 de 2020, que estabelece metas e procedimentos específicos para eletroeletrônicos. Para Esteves, a organização coletiva viabiliza a conformidade das fabricantes: "A associação traz primeiro um rateio de custos, ou seja, divide custos, e consegue ser muito mais eficiente porque tudo isso que nós estamos falando tem que ser reportado, seja para o Ministério do Meio Ambiente, seja para órgãos estaduais".
Conscientização do consumidor e engajamento das empresas
A legislação brasileira estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, atribuindo ao cidadão a etapa inicial de entrega dos resíduos. A entidade disponibiliza uma plataforma digital onde o usuário insere o CEP residencial para localizar o Ponto de Entrega Voluntária (PEV) mais próximo, além de promover campanhas municipais de arrecadação em formato drive-thru e projetos educativos voltados a escolas.
Esteves aponta que "são mais de 7.000 pontos pelo país, aonde a gente pode receber esses resíduos", mas ressalta o desafio de trazer mais companhias para o modelo regular. De acordo com a estimativa apresentada, o mercado brasileiro reúne cerca de 4.000 empresas produtoras e importadoras de eletroeletrônicos, mas menos de 5% — índice inferior a 200 companhias — aderiram ao sistema formal de logística reversa.
Greenwashing, coopetição e credibilidade das marcas
A convivência de fabricantes rivais dentro da mesma entidade é definida por Esteves pelo conceito de coopetição, no qual concorrentes de mercado atuam de forma coordenada para viabilizar metas ambientais comuns. Essa estrutura conjunta visa blindar as associadas contra acusações de greenwashing por meio de relatórios auditados e do uso do Selo ABREE nas embalagens.
Esteves observa que "quem está no sistema formal tá cooperando de alguma maneira. No mercado, sim, eles tão se matando lá porque eles tão concorrendo". O contraponto recai sobre importadores e comerciantes que não arcam com os custos de reciclagem e utilizam mensagens ecológicas desprovidas de lastro comprobatório, gerando assimetria competitiva.
Comunicação para o público final e engajamento da diretoria
Após o descarte nos pontos de entrega, os materiais são encaminhados a operadores homologados de manufatura reversa para desmonte, trituração e triagem. Os três insumos principais obtidos no processo — metal, plástico e vidro — retornam à cadeia produtiva em aplicações como vergalhões para a construção civil, reduzindo a extração de matérias-primas virgens.
Esteves salienta que "o objetivo da economia circular é esse: é poluir menos e retirar menos materiais virgens da natureza". Na análise do executivo, o interesse crescente das diretorias executivas por dados ESG decorre da pressão exercida por consumidores mais jovens, que passam a exigir rastreabilidade e chancelas auditadas antes de decidir a compra.
Planejamento de demanda e o cenário logístico internacional vs. Brasil
A experiência prévia em processos como S&OP (Sales and Operations Planning) e CPFR (Collaborative Planning, Forecasting, and Replenishment) fundamenta o trabalho de mitigação de desperdícios na cadeia reversa. Esteves compara a realidade do Brasil com mercados da União Europeia e do Japão, destacando que a extensão territorial e os gargalos de malha rodoviária e ferroviária encarecem o transporte de resíduos entre regiões distantes.
Ao avaliar a expansão das importações de plataformas asiáticas e marketplaces, Esteves defende que a fiscalização pública condicione a entrada de produtos ao financiamento de sua logística reversa local. A entrada de itens sem contrapartida ambiental sobrecarrega a infraestrutura nacional de reciclagem, que precisa processar aparelhos sem que os importadores tenham contribuído para o custeio da operação.
Liderança com dados e a aplicação de inteligência artificial
Sobre a gestão orientada por métricas, Esteves afirma que o papel central de um líder é interpretar indicadores e converter relatórios numéricos em decisões operacionais claras. Métricas puras sem contexto prático geram metas distorcidas e falhas de direcionamento.
No campo da inteligência artificial, Esteves indica que as ferramentas já trazem ganhos de produtividade na logística linear tradicional e começam a ser testadas na manufatura reversa, auxiliando na identificação e na separação de componentes. No entanto, o desmonte e a triagem de peças eletrônicas complexas continuam demandando etapas manuais especializadas.
Planejamento regulatório, consultoria e mineração urbana
Entre as prioridades institucionais para os próximos ciclos, a ABREE atua na repactuação de decretos federais junto ao governo para equilibrar exigências operacionais e fortalecer mecanismos de atração e punição de empresas inadimplentes. A entidade também projeta estruturar ofertas de treinamento e consultoria técnica para outros segmentos industriais que buscam adequação ambiental.
Esteves enfatiza o avanço da mineração urbana como vetor estratégico para recuperar terras raras e metais preciosos presentes em placas de circuito impresso descartadas nas residências. A extração desses compostos a partir do lixo eletrônico nacional evita a dependência de novas lavras minerais e devolve insumos de alto valor agregado à indústria tecnológica.