Os dois lados da notícia entre a redação e a assessoria
Fernando Henrique Ahuvia analisa as pressões e dinâmicas de repórteres e assessores de imprensa na comunicação atual.
Em conversa com Bruno Gimenes no Marketing - The Podcast, Fernando Henrique Ahuvia detalha sua trajetória da cobertura esportiva à assessoria de comunicação no SBT. O executivo discute a relação entre redações e assessorias, gestão de pautas e cobertura de grandes eventos.
Fernando Henrique Ahuvia, assessor de comunicação no SBT, falou, em conversa com Bruno Gimenes no Marketing - The Podcast, sobre os desafios, atritos e sinergias entre a prática jornalística de redação e o trabalho estratégico das assessorias de imprensa.
O profissional revisitou sua transição da cobertura esportiva de campo para a gestão de comunicação corporativa e artística, apontando critérios de convivência profissional, cobertura de grandes eventos como a Copa do Mundo e o impacto da inteligência artificial na rotina das assessorias. Para assistir à conversa na íntegra, confira o vídeo acima.
A atração pelo jornalismo esportivo e a nostalgia dos estádios raiz
Ahuvia relembra que o interesse pelo jornalismo esportivo costuma mobilizar grande parte dos estudantes ao ingressarem na faculdade. Segundo ele, embora o segmento concentre grande parte das aspirações iniciais de carreira, o mercado impõe alta concorrência ao longo dos anos de formação acadêmica.
Ao discutir o cenário esportivo com Bruno, Ahuvia também pontuou a transformação das arenas de futebol no Brasil, contrapondo o conforto das modernas construções com a atmosfera de palcos clássicos como o Pacaembu. "A maioria dos estádios pelo menos de série A, a maioria de série B, estádios modernos, confortáveis, com infraestrutura assim de primeira, por causa da Copa, a grande maioria foi construído, mas faz falta aquele estádio raiz", afirmou Ahuvia.
A vida fora do crachá: esportes, gastronomia e desconexão
Fora da rotina institucional no SBT, Ahuvia destaca a importância dos momentos de desconexão, apesar da dificuldade imposta pela rotina de assessoria. Ele relembrou um período de três dias sem sinal de celular nos Lençóis Maranhenses, classificando a experiência de isolamento digital como revigorante.
Ahuvia também cultiva a gastronomia como hobby, dedicando tempo a conhecer novos estabelecimentos e escrever avaliações públicas no Google. "Eu sou o cara que escreve review do restaurante, então quando você vai lá no restaurante: 'Deixa eu ver se esse restaurante é bom, deixa eu ver os últimos comentários'. Tem sempre um comentário meu lá", contou.
A versatilidade necessária no jornalismo moderno
Ao abordar as exigências técnicas da profissão, Ahuvia enfatizou que o jornalista contemporâneo não pode se limitar a uma única editoria. Ele explicou que mesmo profissionais dedicados aos esportes precisam estar preparados para cobrir fatos factuais urgentes, política ou economia.
"Quando você é um repórter, às vezes acontece alguma tragédia, algum caso muito grave, que você vai precisar pegar, putz, vou precisar puxar o cara da redação do esporte para fazer uma matéria", explicou Ahuvia, apontando que a flexibilidade amplia o repertório e as oportunidades de carreira.
Trajetória profissional: do furo com Sylvinho à assessoria no SBT
O início da carreira de Ahuvia na cobertura esportiva foi marcado por passagens pelo site francês Sambafoot e pelo portal Goal, cobrindo o dia a dia dos grandes clubes paulistas e a Seleção Brasileira. Entre os momentos marcantes, ele relembrou a primeira entrevista exclusiva de sua vida em 2011, quando o lateral Sylvinho anunciou inesperadamente a aposentadoria dos gramados.
Posteriormente, Ahuvia atuou na Triple Comunicação a convite de Sergio, conciliando redação e assessoria de jogadores até sua transição definitiva para o SBT em 2021, inicialmente cobrindo uma licença-maternidade de seis meses. "Eu vim por causa da experiência no esporte, mas abriu o leque, porque eu passei a cuidar de noite, de programas do Santos, de Domingo Legal, programa do Ratinho, já rodei em vários programas. E a experiência tem sido muito bacana e agora em outubro eu tô completando 5 anos de SBT", detalhou.
O legado de Silvio Santos e o clima de trabalho no SBT
Ahuvia comentou a experiência de trabalhar na emissora fundada por Silvio Santos, ressaltando o ambiente colaborativo e o respeito histórico construído pelo comunicador. Ele relatou sua participação na cobertura do Troféu Imprensa em 2022 e a força da marca SBT junto às famílias brasileiras.
"O ambiente aqui para trabalhar é maravilhoso. Eu felizmente tive a oportunidade de ver Silvio Santos aqui no SBT", destacou Ahuvia, comparando a representatividade do apresentador na comunicação brasileira ao impacto de Pelé no futebol mundial.
Repórter versus assessor: as pressões e dinâmicas dos dois lados
Com base em dados que apontam que mais de 40% dos jornalistas brasileiros atuam em assessoria de imprensa e comunicação institucional, Ahuvia analisou a diferença operacional entre quem busca o furo e quem constrói o fluxo da informação. Para ele, o assessor não é um repórter que desistiu da redação, mas um profissional que precisa pensar estrategicamente como repórter.
"A diferença é que na redação, enquanto você é jornalista, você tá procurando a notícia. E na assessoria, você também precisa identificar onde existe uma história relevante e criar as condições para que ela chegue até o jornalista", observou Ahuvia. Ele ressaltou que ambas as pontas sofrem pressões intensas de prazos, entregas e gerenciamento de expectativas.
O papel da provocação jornalística e os conflitos com assessorias
O limite do questionamento crítico e da provocação jornalística foi debatido como parte inerente da atividade da imprensa. Para Ahuvia, repórteres que fogem do lugar-comum e desafiam porta-vozes realizam o verdadeiro papel jornalístico, exigindo preparo contínuo das equipes de assessoria.
Ahuvia enfatizou que a divergência pontual entre veículos e assessorias é natural, desde que fundada na transparência. "O conflito começa quando uma parte deixa de entender o papel da outra. Então o jornalista precisa preservar a independência da apuração e o assessor precisa defender os interesses de quem tá assessorando. Isso não significa que eles precisam ser adversários", afirmou.
Erros frequentes na relação entre repórteres e assessores
Ao avaliar equívocos recorrentes de conduta, Ahuvia apontou que muitos assessores erram ao priorizar exclusivamente os grandes veículos de massa, desprezando publicações segmentadas ou profissionais em início de trajetória que produzem pautas aprofundadas.
"Acho que a gente precisa dar espaço para todo mundo. É óbvio que vai ter momento que eu como assessor aqui vou procurar o maior veículo para o meu talento falar, mas vai ter momento que eu vou falar: não, acho que é legal ele ir num podcast ou ir em algum lugar que tenha um espaço um pouco menor, ou que seja um veículo mais nichado", explicou Ahuvia, alertando também repórteres que não compreendem os prazos e limitações dos porta-vozes.
A expansão das assessorias de imprensa e a criação de nichos
O crescimento de empresas B2B, startups e novos modelos de entretenimento ampliou exponencialmente o mercado de comunicação corporativa. Ahuvia destacou que a abundância de marcas e canais exige filtros mais rigorosos para garantir atendimento de qualidade e relevância nas coletivas.
No caso de grandes projetos no SBT, a estratégia tem priorizado eventos estruturados para o público certo. "A gente hoje no SBT, por exemplo, tá fazendo coletivas um pouco mais enxutas. A gente não tem mais condição de ficar trazendo 200 jornalistas", disse Ahuvia, citando encontros voltados especificamente ao trade publicitário e mercado B2B.
Quadro 'Impedimento ou Gol': mitos e verdades da comunicação
Em dinâmica sobre mitos da profissão, Ahuvia classificou como incorretas visões estereotipadas como a de que o trabalho do assessor se resume a disparar releases e fazer follow-up telefônico, ou de que existe inimizade compulsória entre repórteres e assessores.
Ahuvia também avaliou o impacto das ferramentas de automação. "Acho que a IA, ela pode ajudar muito na produção. Eu mesmo uso a IA hoje já como um apoio. Eu gosto de fazer o meu texto, eu tenho meu jeito de escrever, mas o release, exatamente por isso, continua tendo o seu espaço", afirmou.
Cartilha da boa convivência entre jornalistas e assessores
Para assegurar uma convivência produtiva, Ahuvia listou três diretrizes para assessores: respeitar o deadline do repórter, manter total transparência quando não for viável atender uma demanda e cultivar o relacionamento contínuo sem procurar o jornalista apenas por interesse de divulgação imediata.
Para os jornalistas que demandam fontes, os princípios se espelham: respeitar os prazos e processos internos da organização, ser explícito sobre o contexto e ângulo da pauta e sustentar pontes de contato consistentes baseadas em confiança mútua.
Bastidores da Copa do Mundo no SBT e a versatilidade de Tiago Leifert
Ahuvia relembrou os desafios de planejamento de comunicação da Copa do Mundo exibida pelo SBT, ressaltando o esforço multidisciplinar de meses e a repercussão positiva das transmissões com equipe formada por Galvão Bueno, Mauro Naves, Carol Barcellos e Tiago Leifert.
Ao comentar a atuação de Leifert, Ahuvia destacou a capacidade do comunicador de transitar com autoridade entre jornalismo esportivo, entretenimento e universo digital. "O que você der de projeto para ele, ele revolucionou o Globo Esporte lá atrás na Globo, depois outras coisas esportivas, depois ele foi para o entretenimento", concluiu.