Tênis chineses no Brasil: desafios e o varejo da Keep Running
Igor Santos detalha bastidores do varejo especializado, ciclos de compra e as barreiras das marcas chinesas no país.
Igor Santos, fundador da Keep Running, analisa o cenário dos calçados chineses no Brasil e os desafios de importação e marketing. O empresário também explica a operação do varejo especializado e os planos de expansão da loja.
No segundo episódio do Stemma China, os apresentadores Fabio Bessa e Carlos Gueiros recebem Igor Santos, sócio-fundador da Keep Running. A conversa aborda desde os bastidores operacionais do varejo esportivo de alta performance até os motivos que ainda travam a consolidação em massa das marcas chinesas de corrida no mercado brasileiro.
Origem e modelo de negócio da Keep Running
A Keep Running iniciou sua trajetória estritamente no e-commerce, operando a partir da garagem da casa de Igor e de sua esposa, Bel. Com o aumento expressivo de volume no topo de linha dos calçados de performance, a empresa enfrentou o desafio comum ao comércio digital: a guerra por preços e a comoditização das abas de navegação. A resposta foi a migração para o espaço físico na Sena Madureira, em São Paulo, concebido como um centro 360º para corredores, integrando loja, fisioterapia especializada com a Dra. Anaira, treinamento de força baseado em velocidade (VBT) e produção de conteúdo.
Desafios e percepção das marcas chinesas no Brasil
Apesar da evolução tecnológica evidente em marcas como Anta, Li-Ning e Xtep — cujos produtos de ponta competem diretamente com gigantes globais —, a entrada no Brasil esbarra na falta de posicionamento de longo prazo. Igor relembrou a experiência da Keep Running com a 361 Degrees na época dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, quando a presença como uniforme de voluntários não se converteu em desejo de compra nas prateleiras. O apego do corredor a marcas consolidadas e o peso das taxas de importação em compras individuais formam barreiras adicionais para o crescimento desses fabricantes.
Como funciona o ciclo de compras do varejo de tênis
O abastecimento do varejo especializado exige um planejamento com meses de antecedência. Os pedidos para lançamentos globais são fechados semestralmente cerca de seis a sete meses antes da chegada dos produtos ao estoque brasileiro, enquanto as matrizes trabalham projeções de desenvolvimento com até dois anos de frente. O caso do Adidas Adizero EVO SL Bob Marley ilustrou como o storytelling e a construção de marca podem reverter apostas iniciais dos lojistas e criar demandas repentinas no mercado.
Expansão da Keep Running e critérios de seleção de marcas
A Keep Running prepara a abertura de sua segunda unidade física, instalada em formato compacto no Morumbi. Diferente da loja conceito da Sena Madureira, que reúne cerca de 15 marcas, a nova filial concentrará as seis fabricantes de maior giro e conexão com seu público: Adidas, Nike, Mizuno, ASICS, New Balance e On Running. O critério reforça que a viabilidade de uma marca no ponto de venda depende diretamente do investimento que a própria fabricante realiza para contar sua história e gerar valor ao corredor.
Disputas de marcas e o caso Qiaodan vs. Michael Jordan
O episódio também explorou os desafios jurídicos de propriedade intelectual no mercado asiático, destacando a longa batalha entre Michael Jordan e a fabricante chinesa Qiaodan. Fundada nos anos 2000 usando a transliteração do nome do astro do basquete e uma silhueta inspirada no Jumpman, a empresa chinesa enfrentou anos de processos judiciais até que pesquisas demonstraram que 93% dos consumidores acreditavam se tratar de uma linha oficial licenciada.
Próximos passos da Keep Running e a origem do nome
Além de consolidar os serviços de preparação física e testar o modelo de loja compacta, Igor revelou a curiosa inspiração por trás do nome Keep Running. A ideia nasceu a partir do slogan "Keep Walking", da Johnnie Walker, invertendo o sentido visual da caminhada para uma corrida voltada à saúde e à evolução esportiva.