Ricardo Prado e os desafios da base na natação escolar
Medalhista olímpico detalha rotina de treinos em colégio internacional, carências técnicas da base e planos futuros.
Em entrevista ao canal Stemma Sports, o medalhista olímpico Ricardo Prado explicou como funciona o treinamento de natação em ambiente escolar e apontou a perda de fundamentos técnicos nas novas gerações. Ele também destacou o desejo de voltar a trabalhar com categorias de base em grandes clubes.
Com uma carreira consagrada nas piscinas mundiais, o medalhista olímpico Ricardo Prado encontrou na borda da piscina escolar um novo formato de atuação. Atuando no programa de after school de uma escola de padrão internacional em São Paulo, ele comanda turmas de jovens divididos entre Middle School (11 a 14 anos) e High School (até 18 anos). Embora o perfil dos alunos esteja prioritariamente voltado aos estudos acadêmicos e a futuras graduações no exterior, o programa oferece uma vivência competitiva estruturada.
O ponto alto do calendário é uma competição anual que reúne colégios internacionais de toda a América do Sul — com delegações vindas de cidades como Curitiba, Buenos Aires, Lima, Santiago, Quito e do Uruguai. Prado viaja com um time de cerca de 30 atletas para enfrentar cinco etapas intensas, somando 20 provas de revezamento e uma média de até 11 quedas na água por nadador ao longo do torneio.
A perda de fundamentos técnicos na formação inicial
Apesar da estrutura de ponta do colégio — que conta com piscina coberta, placar eletrônico e pista de atletismo de 400 metros —, Ricardo Prado observa uma mudança sensível na qualidade técnica com que as crianças chegam à modalidade. Segundo o ex-recordista mundial, é comum receber jovens de alto poder aquisitivo que frequentam boas academias, mas que ainda não dominam os quatro estilos de nado.
Para Prado, essa defasagem reflete uma transformação no mercado de ensino aquático infantil. No passado, ex-nadadores formavam a base dos professores de academia, garantindo uma transmissão natural de mecânica de nado e sensibilidade aquática. Com a profissionalização genérica das funções, muitos instrutores atuam nas piscinas sem vivência prática prévia da modalidade competitiva, o que acaba limitando a formação técnica dos alunos ao nado crawl básico.
Frequência semanal, filipina e streamline
Outro grande desafio do treinamento escolar é a concorrência com outras modalidades (como basquete, futebol e vôlei) e a baixa frequência semanal. Enquanto Prado está presente na borda da piscina cinco dias por semana, a maior parte dos alunos comparece a apenas duas ou três sessões, sem treinos aos sábados. Esse espaçamento entre os treinos compromete a retenção de movimentos fundamentais.
O treinador aponta que elementos como o streamline (posição hidrodinâmica na saída e na virada) e a filipina (tração subaquática do nado peito) exigem repetição constante. Quando um atleta treina apenas no início da semana e passa vários dias afastado da água, a memória motora desses fundamentos se perde, exigindo correções recorrentes em aula.
Planos para a base em clubes
Ainda que aprecie a leveza da rotina escolar e a ausência da pressão extrema vivida nos tempos de atleta e dirigente, Ricardo Prado revelou que sente falta do ambiente competitivo dos clubes. Seu interesse, contudo, não mira o alto rendimento adulto, mas sim categorias de formação, como o juvenil, onde enxerga maior margem para fazer a diferença no desenvolvimento dos nadadores.