Ricardo Prado detalha a prata em Los Angeles e o fim precoce
O medalhista olímpico relembra a rotina de treinos desde os 9 anos, os bastidores de 1984 e a falta de apoio na época.
Em conversa no Natação Stemma, Ricardo Prado resgata os bastidores da medalha de prata nos 400m medley em Los Angeles 1984. O ex-nadador detalha a rotina exaustiva desde a infância, o atrito na preparação nos EUA e os motivos de ter deixado as piscinas cedo.
A trajetória de Ricardo Prado na natação brasileira foi construída com um nível de exigência raro desde a infância. Convidado do Natação Stemma, o medalhista olímpico relembrou que a seriedade nos treinamentos sempre teve um objetivo claro: construir feitos esportivos que permanecessem vivos na memória da modalidade décadas depois. No entanto, o caminho até o pódio exigiu uma carga física e mental enfrentada praticamente em voo solo, em um período com estrutura muito distante da atual.
O talento nas piscinas apareceu cedo: aos cinco anos, Prado já fazia demonstrações de nado borboleta nas competições dos irmãos mais velhos. Aos nove, já encarava uma rotina de dois treinos diários — um após a escola e outro no fim da tarde. O ex-atleta recorda que não treinava por gostar da rotina pesada em si, mas pela consciência precoce de que aquele esforço era o único meio de chegar a lugares onde nenhum outro brasileiro havia chegado, suprindo a carência de suporte multidisciplinar apenas com determinação pessoal.
A preparação turbulenta e a prata em Los Angeles 1984
Depois de estrear em Jogos Olímpicos aos 15 anos, em Moscou 1980 (quando terminou em 12º lugar), Prado chegou a Los Angeles 1984 aos 19 anos credenciado pelo recorde mundial dos 400m medley batido dois anos antes, aos 17. A reta final de preparação para a Olimpíada norte-americana, no entanto, foi marcada por atritos. Treinando nos Estados Unidos, viu o técnico Mark Schubert priorizar os atletas americanos que ainda buscavam vaga na seletiva local. Sem a atenção necessária a poucas semanas dos Jogos, Prado decidiu retornar ao Brasil para concluir seus treinos por conta própria.
Em Los Angeles, o programa de provas cobrou um preço físico altíssimo. Logo no primeiro dia de disputas, Prado conquistou a medalha de prata nos 400m medley. No terceiro dia, alcançou o quarto lugar nos 200m costas. O desgaste acumulado, porém, cobrou a conta nas provas seguintes: exausto física e mentalmente, não avançou para a final principal dos 200m borboleta e dos 200m medley, optando por não disputar a final de consolação.
Realidade financeira e aposentadoria precoce
Mesmo com a prata olímpica e o destaque no circuito universitário norte-americano, a vida fora da piscina permaneceu modesta. Prado recebia cerca de 300 dólares e não contava com respaldo financeiro ou acompanhamento profissional que garantisse sua longevidade no alto rendimento. Mais tarde, teve uma breve passagem pelo Esporte Clube Pinheiros, onde chegou a dividir raia de treino com sócios recreativos do clube antes de ser dispensado ao retornar aos Estados Unidos.
Sem perspectivas financeiras e desgastado por anos de treinamento extenuante sem suporte adequado, Prado decidiu encerrar a carreira precocemente, sem arrependimentos da escolha. Ao comparar sua época com o cenário contemporâneo, o ex-recordista mundial avalia que a natação atual oferece muito mais recursos aos atletas, o que deveria se traduzir em cobrança e ambição ainda maiores para competir em alto nível no cenário internacional.