Ricardo Prado analisa bastidores da natação e trajetória
Medalhista olímpico debate formação esportiva, gestão na CBDA, carreira nos Estados Unidos e superação na saúde.
Em conversa aprofundada no Natação Stemma, Ricardo Prado analisa o cenário esportivo brasileiro sob as perspectivas de atleta, formador e dirigente. Confira o panorama completo dos temas debatidos no episódio.
Medalhista olímpico em Los Angeles 1984 e ex-recordista mundial dos 400m medley, Ricardo Prado esteve no Natação Stemma ao lado de Samir Barel e Wanderley Santos para uma conversa abrangente. Com experiência acumulada como nadador de elite, treinador de base e diretor esportivo na CBDA, Prado avaliou a formação de jovens talentos, as deficiências de gestão no esporte aquático nacional e relembrou bastidores marcantes da própria vida esportiva e pessoal.
O Projeto Ricardo Prado no Ibirapuera
Entre 1991 e 2004, Ricardo Prado liderou um projeto de formação de nadadores no Conjunto Desportivo do Ibirapuera, em São Paulo. Inicialmente concebido a partir de um cargo na Secretaria de Estado de Esportes e mais tarde associado ao Projeto Futuro, o programa recebia jovens saídos de escolinhas e os lapidava até o nível de campeonato paulista e brasileiro. Durante doze anos, o treinador esteve diariamente na borda da piscina oferecendo oportunidades a garotos sem espaço nos grandes clubes, estrutura que contava inclusive com alojamento sob as arquibancadas.
Treinamento escolar na Graded e a base da natação
Atualmente à frente do programa de natação da Graded School em São Paulo, Prado detalha as particularidades de conduzir treinos no contraturno escolar (after school). O ex-nadador aponta uma defasagem técnica nas gerações recentes, observando que muitas crianças chegam às equipes sem o domínio completo dos quatro estilos. Para ele, a transição no perfil dos instrutores em academias gerou lacunas no ensino de fundamentos cruciais, como a filipina e o alinhamento corporal (streamline), enquanto as escolas equilibram a prática recreativa com torneios internacionais sul-americanos.
Gestão esportiva, CBDA e investimentos na base
Com a bagagem de quem atuou na diretoria de esportes da Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos e na organização dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e Rio 2016, Prado faz uma crítica direta ao modelo de financiamento esportivo. O dirigente argumenta que, embora os atletas de ponta contem hoje com suporte financeiro e viagens internacionais que não existiam no passado, há uma dependência excessiva de resultados imediatos e falta de apoio consistente para a transição dos nadadores das categorias juvenil e júnior rumo ao alto rendimento sênior.
A trajetória como atleta e a medalha em Los Angeles
Ao revisitar a própria carreira, Prado discute a mentalidade exigente necessária para alcançar o topo do pódio internacional. Ele relembra as dificuldades durante a preparação para os Jogos Olímpicos de 1984, quando precisou deixar os Estados Unidos para treinar no Brasil devido à divisão de atenção de seu técnico com a seletiva americana. O medalhista também expõe os motivos de sua aposentadoria precoce aos 23 anos, decorrente do desgaste mental, da rotina severa de treinamentos e da escassez de retorno financeiro na época.
O infarto aos 38 anos e a recuperação médica
O ex-atleta relata o susto que viveu aos 38 anos, quando sofreu um infarto assintomático durante férias em Dallas, nos Estados Unidos. Diagnosticado inicialmente após exames de sangue no hospital local, Prado colocou um stent emergencial e, ao retornar ao Brasil, descobriu obstruções severas em outras duas artérias pelo Instituto do Coração (Incor). O episódio exigiu intervenções cirúrgicas de desobstrução, adoção de rotina preventiva de medicamentos e adaptações no ritmo de treinos e atividade física.
O mito do convite para defender os Estados Unidos
Encerrando a conversa, Ricardo esclarece a história de que teria recebido um convite formal para se naturalizar norte-americano e competir pelos Estados Unidos antes dos Jogos de 1984. O ex-nadador revela que o boato foi, na verdade, uma estratégia criada na época por seu empresário, Fernando Sandoval, com o objetivo de pressionar dirigentes brasileiros e chamar a atenção da mídia e de patrocinadores locais para a falta de apoio ao atleta no exterior.