Ricardo Cintra: da velocidade ao topo das águas abertas
Técnico campeão mundial e medalhista olímpico detalha os bastidores da carreira e a consagração com Poliana Okimoto.
Em entrevista ao Natação Stemma, o treinador Ricardo Cintra repassa sua trajetória como velocista e os anos de dedicação que levaram Poliana Okimoto ao pódio olímpico. O episódio aborda momentos históricos da maratona aquática, os desafios da modalidade e os projetos atuais com a assessoria esportiva e a TPO.
Treinador da Seleção Brasileira de Maratonas Aquáticas por mais de uma década e comandante técnico da histórica medalha olímpica de bronze de Poliana Okimoto na Rio 2016, Ricardo Cintra esteve no Natação Stemma para repassar sua trajetória. Em conversa com Samir Barel e Wanderley Santos, ele revisitou memórias desde os tempos de atleta velocista até o trabalho atual no desenvolvimento de nadadores amadores.
Início e carreira de Ricardo Cintra como nadador velocista
Nascido em Mogi Mirim, Ricardo deu suas primeiras braçadas em uma pequena academia local de piscina de 20 metros, convivendo desde cedo com nomes que despontariam no triatlo. Destacando-se nas provas de 50 e 100 metros livre, transferiu-se ainda jovem para a república de atletas do Corinthians sob o comando de William Urizzi de Lima. Posteriormente, defendeu o Pinheiros por cinco anos, treinando ao lado de referências como Gustavo Borges e Cassiano Leal, e passou pelo Minas Tênis Clube antes de chegar ao Santa Cecília, onde conquistou a medalha de prata nos 50 metros livre no Troféu José Finkel de 2002.
Transição para treinador, início da equipe e os primeiros passos de Poliana Okimoto
Ao concluir a faculdade de Educação Física em Santos e decidir encerrar a carreira nas piscinas, Cintra assumiu o desafio de treinar Poliana Okimoto, que enfrentava uma fase de estagnação de tempos. Com o suporte do técnico Vanzella e montando uma base de treinos na Unimonte, que reuniu dezenas de triatletas com o auxílio de Palito na borda, ele identificou a excepcional capacidade aeróbica da atleta. Essa percepção culminou na vitória de Poliana na tradicional Travessia dos Fortes, marcando a guinada definitiva da nadadora rumo às provas de águas abertas.
O Mundial de Nápoles 2006 e a mudança de patamar do Brasil
A estreia oficial no cenário internacional ocorreu no Campeonato Mundial de Nápoles, em 2006, quando Poliana conquistou duas medalhas de prata (5 km e 10 km). Ricardo relembra o contraste entre a recepção inicial desdenhosa das grandes potências e a consolidação do respeito mundial ao longo dos anos, marco que transformou o Brasil em uma das maiores forças das maratonas aquáticas ao lado de nomes como Ana Marcela Cunha e Allan do Carmo.
A geração de ouro de 2013 e os desafios da massificação
O ponto mais alto da modalidade em Campeonatos Mundiais veio em Barcelona 2013, quando o Brasil conquistou o título geral da maratona aquática com o ouro histórico de Poliana nos 10 km e a dobradinha no pódio feminino com Ana Marcela. Apesar dos resultados expressivos, Cintra aponta que o país não aproveitou a oportunidade para estruturar e massificar a modalidade nas categorias de base dos clubes, deixando o esporte dependente de talentos esporádicos e dos fundistas de piscina.
Quebrando barreiras psicológicas na natação feminina
As conquistas em águas abertas tiveram papel decisivo na quebra de paradigmas dentro da natação brasileira. Ricardo relata o longo processo de preparação mental, conduzido com apoio da psicóloga Regina Brandão, para superar a crença histórica de que atletas femininas brasileiras não tinham chances reais de pódio em Jogos Olímpicos, abrindo caminho para uma nova postura competitiva também nas provas de piscina.
A rotina e os desafios de ser marido e treinador em alto rendimento
A intensidade do alto rendimento exigiu dedicação contínua durante 15 anos de parceria nas piscinas e no mar. Ricardo detalha a sobrecarga emocional e a pressão diária de conciliar o papel de técnico com a vida conjugal, assumindo o controle logístico, tático e nutricional da preparação. Ele também recorda o trabalho com outros nadadores de ponta ao longo da carreira antes de optar por se afastar das equipes competitivas.
A assessoria esportiva Okimoto & Cintra
Após o ciclo olímpico, Cintra direcionou sua atuação para a assessoria esportiva Okimoto & Cintra, com polos de treinamento estruturados no Clube Esperia e no Esporte Clube Sírio, em São Paulo. O projeto atende majoritariamente triatletas e nadadores amadores, focando na evolução técnica desde iniciantes até atletas que buscam travessias clássicas como a 14 Bis e provas de ultramaratona.
História e expansão da Travessia Poliana Okimoto (TPO)
O treinador também aborda o crescimento da Travessia Poliana Okimoto (TPO), evento criado para consolidar o legado da atleta nas águas abertas. Realizada em parceria com a empresa Vega, a prova já reúne milhares de participantes no litoral paulista e inclui modalidades como o aquathlon, com projetos em estudo para levar etapas a locais como o litoral catarinense e a região Nordeste.
Bastidores em fotos: Pequim 2008 e o esbarrão em Michael Phelps
Encerrando o episódio com a análise de imagens marcantes de sua trajetória, Cintra relembrou passagens de bastidores, incluindo o dia em que Poliana, durante uma série de velocidade na piscina de aquecimento nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, atingiu acidentalmente o braço de Michael Phelps com um palmar pouco antes de o nadador norte-americano disputar sua última prova daquela edição.