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Como Ricardo Cintra virou técnico e lapidou Poliana Okimoto

Do início improvável em Santos à Travessia dos Fortes, treinador detalha a aposta nas maratonas aquáticas.

Em entrevista ao Natação Stemma, Ricardo Cintra relembra como deixou as piscinas como velocista para assumir os treinos de Poliana Okimoto. Ele conta os bastidores da criação da equipe em Santos e a visão que levou a nadadora ao mar.

A trajetória de Ricardo Cintra como treinador de águas abertas começou com um salto no escuro. Nadador velocista com medalha de Troféu José Finkel nos 50m e 100m livre pelo Santa Cecília, Cintra estava desiludido com o retorno financeiro da natação competitiva em 2002 e prestes a concluir a faculdade de Educação Física quando conheceu Poliana Okimoto, em 2003.

Na época, embora vencesse provas de 800m e 1.500m livre, Poliana acumulava seis anos sem baixar suas marcas pessoais e pensava seriamente em encerrar a carreira. Ao perceber que a atleta tinha uma capacidade aeróbica fora da curva, mas pecava em aspectos fora da piscina — como preparação física e suplementação —, Cintra fez uma proposta audaciosa: assumir os treinos da companheira e tentar recuperar sua evolução.

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A parceria com o Pinheiros e a base na Unimonte

A transição exigiu jogo de cintura nos bastidores. Para viabilizar a estrutura de treinos sem sair de Santos, Cintra conversou com o técnico Albertinho, do Esporte Clube Pinheiros. O clube paulistano não tinha interesse em um velocista, mas buscava uma fundista para pontuar em campeonatos. O acordo foi fechado: Poliana defenderia o Pinheiros, mas faria toda a preparação no litoral paulista sob o comando de Cintra, com suporte metodológico inicial de Vanzella, treinador de fundo do clube.

Os trabalhos começaram na piscina olímpica da Unimonte, em Santos. No início, Poliana treinava sozinha, mas logo o grupo se expandiu com a chegada de triatletas puxados por Fábio Carvalho, como Paulo Miyashiro, Fernanda Garcia, Fredinho e Marquinhos. Na borda, Cintra também ganhou um braço direito inusitado: o triatleta Roberto Palito, que abandonou as braçadas após sofrer para fechar as séries e virou auxiliar técnico por quase sete anos.

Como Ricardo Cintra virou técnico e lapidou Poliana Okimoto

O estalo das maratonas aquáticas e a Travessia dos Fortes

O plano deu resultado imediato nas piscinas: em apenas seis meses de trabalho, Poliana bateu todos os seus recordes pessoais no Troféu Brasil. No entanto, o verdadeiro divisor de águas aconteceu no fim de 2004, quando Cintra assistiu pela televisão à Travessia dos Fortes, no Rio de Janeiro, com premiação de R$ 10 mil para a campeã.

Quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) oficializou a maratona aquática de 10 km no programa dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, Cintra teve a certeza de que o futuro de Poliana estava no mar. A nadadora não tinha a velocidade pura exigida nos 800m de piscina, mas sustentava um ritmo aeróbico inatingível para as rivais.

A estreia no mar, contudo, teve doses de drama. Sem verba para passagens aéreas, o casal viajou de ônibus para o Rio de Janeiro de carona com a equipe master Master Nada Mais. Na véspera, em Copacabana, Poliana caiu no choro com medo da ondulação e quase desistiu de largar. Estimulada pela premiação e pela presença das principais adversárias, ela entrou na água, abriu cinco corpos de vantagem já na primeira boia de 200 metros e venceu a prova com tempo próximo ao do campeão masculino, Luiz Lima, superando uma jovem Ana Marcela Cunha, então com 14 anos, que terminou em segundo lugar.

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