O Mundial de 2013 e o desafio de massificar as águas abertas
Ricardo Cintra relembra o título histórico em Barcelona e debate a falta de incentivo estrutural nos clubes de natação.
A campanha histórica do Brasil no Mundial de Barcelona em 2013 consagrou uma geração vitoriosa nas águas abertas. O técnico Ricardo Cintra reflete sobre o título mundial por equipes e a oportunidade perdida de transformar os resultados em formação de base nos clubes brasileiros.
Relembrar a campanha do Brasil no Mundial de Esportes Aquáticos de Barcelona, em 2013, traz um misto de orgulho e reflexão para a maratona aquática nacional. Sob o comando técnico de Ricardo Cintra, o time brasileiro alcançou o título geral por equipes da modalidade, consolidando um domínio técnico que chamou a atenção das principais potências do esporte.
Naquele campeonato, Poliana Okimoto conquistou o ouro nos 10 km — a única medalha dourada do país nessa distância em Mundiais — e a prata nos 5 km. O Brasil ainda cravou uma dobradinha histórica nos 10 km com a prata de Ana Marcela Cunha, que também levou o bronze nos 5 km. Para completar o quadro, o revezamento com Poliana, Samuel de Bona e Allan do Carmo faturou o bronze, enquanto Samuel foi quinto nos 5 km e Allan garantiu o sétimo lugar nos 10 km.
A chance perdida de integração com os clubes
Apesar da hegemonia e do prestígio internacional — que levava técnicos de seleções como Estados Unidos e Austrália a observarem os treinamentos de altitude do Brasil —, Ricardo Cintra avalia que o esporte perdeu o momento ideal para massificar a modalidade. Poliana manteve uma consistência impressionante ao longo da carreira, subindo ao pódio em 28 das cerca de 40 etapas de circuito mundial que disputou, com 16 a 17 vitórias.
Em 2015, houve uma tentativa de aproximar a maratona aquática da estrutura dos grandes clubes. Com o apoio de Igor de Souza, uma prova foi realizada na Raia Olímpica da USP como evento-teste integrado ao Troféu Brasil de Natação no Ibirapuera. O objetivo era fazer a prova contar pontos na pontuação geral, incentivando agremiações como Pinheiros, Minas Tênis Clube e Corinthians a investirem na contratação e no treinamento específico de maratonistas.
A iniciativa, no entanto, encontrou resistência interna e não foi efetivada no calendário regular. Sem a inclusão das provas de águas abertas nas disputas por clubes — o que desdobraria categorias de base infantil, juvenil e júnior e campeonatos estaduais —, a modalidade continuou excessivamente dependente dos atletas de fundo da natação de piscina.
Para Cintra, a falta desse ecossistema estruturado faz com que o Brasil corra o risco de viver apenas de talentos esporádicos, mesmo com referências consolidadas como Ana Marcela Cunha. O debate levantado no Natação Stemma reforça a necessidade de transformar conquistas históricas em investimento contínuo na formação de novos nadadores.