Mundial de Nápoles 2006: a virada das águas abertas do Brasil
Com duas pratas de Poliana Okimoto e a estreia de Ana Marcela e Allan do Carmo, país deixou o anonimato para virar potência.
Em conversa no Natação Stemma, Ricardo Cintra relembra como o Mundial de Águas Abertas de Nápoles em 2006 mudou a história do esporte no país. O episódio marcou o início de uma geração vitoriosa liderada por Poliana Okimoto, Ana Marcela Cunha e Allan do Carmo.
No podcast Natação Stemma, o treinador Ricardo Cintra detalhou o verdadeiro divisor de águas da maratona aquática brasileira: o Campeonato Mundial de 2006, realizado em Nápoles, na Itália. A competição marcou a estreia em grande escala de uma geração que reescreveu a história da modalidade no país e alterou para sempre a postura dos adversários internacionais em relação à delegação do Brasil.
Da desconfiança internacional ao pódio duplo
Até aquele momento, a presença brasileira nas provas de maratona aquática no exterior era discreta, tendo como referências posições intermediárias em torno do 17º lugar. Ao chegarem ao hotel oficial em Nápoles, Ricardo relata que as potências tradicionais da modalidade — como Estados Unidos, Itália e França — encaravam os atletas brasileiros com desdém, sob a impressão de que estavam na Itália apenas a passeio. A resposta veio dentro d'água: Poliana Okimoto surpreendeu o circuito ao conquistar duas medalhas de prata, nas provas de 5 km e 10 km.
A competição italiana também serviu de vitrine para novos talentos da modalidade. Uma jovem Ana Marcela Cunha, com apenas 14 anos, já figurou entre as primeiras colocadas ao fechar na 8ª ou 9ª posição. Na disputa masculina, Allan do Carmo, acompanhado de seu treinador Rogério Arapiraca, também disputou seu primeiro Mundial e garantiu presença no top 10. O desempenho inédito fez a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), liderada na época por Coaracy Nunes, voltar os olhos com prioridade para as águas abertas.
A consolidação do respeito e o vazio na volta ao Brasil
A transformação de status ficou clara nos anos seguintes. Ricardo Cintra comparou o desembarque de 2006 com a última etapa internacional de Poliana em 2017, em Hong Kong: se em Nápoles a delegação entrou sob olhares de desdém, uma década depois as adversárias demonstravam clara apreensão ao ver Poliana e Ana Marcela entrarem no refeitório, cientes do favoritismo brasileiro.
Apesar do resultado histórico em 2006, o reconhecimento da mídia esportiva nacional não foi imediato. Na volta ao Brasil, uma coletiva de imprensa com banquete foi organizada no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, para celebrar os pódios de Poliana, mas nenhum repórter compareceu, pois as maratonas aquáticas ainda eram desconhecidas do grande público. O pioneirismo daquele grupo abriu as portas para que a modalidade conquistasse pódios olímpicos e atenção consolidada nos principais noticiários do país.