Curated
Voltar S @stemma 4 min de leitura
sports

Regras da CBAt no trail: os desafios de normatizar a montanha

Sidney Togumi e Shubi Guimarães debatem o choque entre a burocracia do atletismo e a realidade das corridas em trilha.

A chegada das regras oficiais da CBAt e da World Athletics ao trail running gerou debates sobre a viabilidade prática das normas na montanha. Sidney Togumi e Shubi Guimarães analisam os principais pontos de atrito, da obrigatoriedade do número de peito à segurança dos atletas.

O crescimento expressivo do trail running no Brasil trouxe a modalidade para o radar das entidades oficiais do atletismo. O movimento faz parte de um processo global de estruturação técnica, impulsionado pela expectativa de inclusão das corridas em trilha no programa olímpico — com previsão de apresentação nos Jogos de Brisbane 2032. No entanto, a transposição direta das regras do atletismo tradicional para o ambiente de montanha tem gerado debates intensos entre organizadores, treinadores e atletas.

PUBLICIDADE (GAM) — 1250x250

O choque entre o atletismo tradicional e a montanha

No episódio do XTREMMA Sports, Sidney Togumi e Shubi Guimarães analisaram os desafios técnicos e práticos que surgem quando normas desenhadas para pistas ou asfalto tentam enquadrar o trail. No atletismo de rua, medidas e estruturas são fixas: uma maratona tem exatamente 42.195 metros e os postos de hidratação seguem distâncias rigorosamente padronizadas. Na trilha, a altimetria, o terreno e o isolamento geográfico impedem qualquer tentativa de padronização absoluta.

A própria definição de percurso na International Trail Running Association (ITRA) e na World Mountain Running Association (WMRA) baseia-se no conceito de quilômetro-esforço (distância somada ao ganho de elevação dividido por 100). Uma prova de 50 km com 3.000 metros de desnível positivo exige uma demanda física e logística completamente distinta de outra com 1.000 metros de altimetria, o que impossibilita comparações diretas apenas pela quilometragem bruta.

Regras da CBAt no trail: os desafios de normatizar a montanha

A Norma 15 da CBAt e as incoerências práticas

No Brasil, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) publicou a Norma 15, baseada na regra técnica da World Athletics para regulamentar o trail e a corrida em montanha. Sidney Togumi, que participou da comissão de elaboração, pontua que grande parte do texto foi uma tradução direta das diretrizes internacionais, sem as adaptações necessárias para as particularidades do terreno e do equipamento dos atletas.

O exemplo mais evidente de incompatibilidade é a exigência do número de peito fixado obrigatoriamente no tórax e visível durante 100% da prova. No trail running, o corredor utiliza colete de hidratação com garrafas frontais (flasks), além de carregar equipamentos obrigatórios na mochila. Quando o clima na montanha muda e exige o uso de um anorak impermeável, furar o tecido com alfinetes compromete a impermeabilidade da jaqueta — item essencial de segurança contra hipotermia. A proibição do uso de porta-números na cintura em competições oficiais gera atritos desnecessários com a arbitragem.

Outros pontos controversos envolvem punições e desclassificações por uso de fones de ouvido, gravação de vídeos durante a prova e a celebração de atletas cruzando a linha de chegada com os filhos. Enquanto grandes eventos internacionais, como a Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTMB), tratam essas situações com flexibilidade e bom senso, a aplicação rígida no cenário nacional tem gerado insegurança entre os competidores.

Segurança e organização coletiva

Tanto Shubi quanto Togumi defendem que a regulamentação é indispensável para elevar o padrão mínimo de segurança dos eventos, exigindo suporte médico real, resgate capacitado e hidratação condizente com o anunciado. A profissionalização evita a proliferação de provas clandestinas ou despreparadas para emergências em áreas remotas.

Para que as normas não descaracterizem o esporte, o caminho apontado é a organização coletiva da comunidade do trail. Em vez de manifestações isoladas em redes sociais, organizadores e atletas precisam construir canais formais de diálogo junto às federações e à CBAt para revisar regras inadequadas e garantir que a legislação esportiva respeite a natureza e a essência da montanha.

PUBLICIDADE (GAM) — 1250x250

Mais de @stemma