Como nasceu a corrida de aventura no Brasil nos anos 90
Shubi Guimarães e Sidney Togumi relembram a época dos mapas de papel, bússolas e descobertas nas bancas de revista.
Antes do GPS e das redes sociais, desbravar os esportes outdoor no Brasil exigia paciência e espírito aventureiro. Em conversa descontraída, Shubi Guimarães e Sidney Togumi recordam os primórdios das corridas de aventura entre o final dos anos 1990 e os anos 2000.
No final da década de 1990, quem quisesse saber os resultados do Mundial de Ironman em Kona ou acompanhar as provas internacionais de endurance precisava assinar revistas importadas como a Outside Magazine ou a Triathlete e esperar até três meses para a edição física desembarcar no Brasil. Muito antes da era dos relógios com GPS, feeds em tempo real e percursos mapeados em aplicativos, o nascimento das corridas de aventura no país foi construído na base de cartazes em lojas especializadas, transmissões na TV a cabo e muita intuição.
A chegada do esporte e o impacto do Eco Challenge
A fagulha para o esporte outdoor no Brasil ganhou força com a exibição do lendário Eco Challenge no Discovery Channel. Para Shubi Guimarães, pioneira da modalidade e fundadora da equipe Atenah, o primeiro contato veio ao folhear uma revista americana em 1997, onde viu imagens de atletas alternando rafting, mountain bike, trekking e rapel na Austrália. No ano seguinte, em 1998, Alexandre Freitas trouxe o formato para terras brasileiras ao criar a EMA (Expedição Mata Atlântica), inspirado por sua participação na tradicional Southern Traverse, na Nova Zelândia.
A estreia de Shubi aconteceu justamente na primeira edição da EMA, realizada em Ilhabela. Sem bicicleta própria, ela encarou o desafio com a bike emprestada do irmão, fez um curso rápido de orientação com o Exército e aprendeu a remar em canoas canadenses praticamente na véspera da largada.
Do asfalto e beisebol para a lama de Salesópolis
Para Sidney Togumi, hoje treinador e referência no trail running nacional, o caminho até as trilhas também começou sem nenhum histórico prévio no universo outdoor. Vindo de esportes tradicionais — ele jogou beisebol dos 8 aos 21 anos, além de praticar judô e natação —, Togumi descobriu a modalidade ao avistar um cartaz da EMA na clássica loja Pé Na Trilha, no bairro do Paraíso, em São Paulo.
Sua estreia oficial veio nos anos 2000 em uma prova organizada por Mário Lopes, patrocinada pela Half Dome, no município de Salesópolis. Naquela época, os trios competiam sem qualquer tecnologia além de cronômetros como o Timex 50 Laps e mapas topográficos em papel. A inexperiência com a plotagem de azimutes rendeu histórias memoráveis: enquanto todo o pelotão largou virando à esquerda, a equipe de Togumi seguiu convicta para a direita debaixo de chuva torrencial.
Os embriões do trail running nacional
Essa atmosfera rústica e colaborativa — registrada na época pelas coberturas em vídeo de Renata Falzoni — serviu de laboratório não apenas para as grandes expedições multiesportivas, mas também para o surgimento das primeiras provas dedicadas à corrida em montanha no país. Movimentos como a Copa Paulista de Fábio Galvão, a chegada do circuito XTERRA e panfletos artesanais de provas no Rio de Janeiro e em Poços de Caldas pavimentaram a transição da aventura pura para o que viria a se consolidar como a cena brasileira de trail running nas décadas seguintes.