A força e a autonomia feminina nas ultramaratonas de montanha
Shubi Guimarães e Sidney Togumi analisam por que provas extremas e distâncias longas atraem cada vez mais mulheres.
Em conversa com Sidney Togumi no XTREMMA Sports, Shubi Guimarães analisa o avanço das mulheres nas ultramaratonas de montanha. O debate aborda a tolerância ao desconforto, a percepção corporal e os desafios da autonomia feminina em provas extremas.
O cenário do trail running mundial vive uma transformação evidente: a participação feminina cresce a passos largos, aproximando-se da paridade em diversos eventos e, em muitos casos, dominando as listas de inscritos nas provas de ultra resistência. Em conversa com Sidney Togumi no canal Stemma Sports, a multiatleta e organizadora Shubi Guimarães debateu os fatores biológicos, comportamentais e sociais que explicam essa evolução das mulheres nas distâncias mais duras do planeta.
Tolerância à dor e sensibilidade corporal em provas longas
Dados apresentados em eventos internacionais, como webinars da World Athletics, apontam que provas de 200 a 250 milhas nos Estados Unidos frequentemente registram mulheres disputando posições de pódio geral com os homens — inclusive com vitórias absolutas, como a de Rachel Entrekin na Cocodona 250. Ao analisar por que as mulheres se destacam conforme o desafio se torna mais longo e severo, Shubi destacou aspectos de resiliência fisiológica e autopercepção.
Para Shubi, o asfalto e as provas estritamente de velocidade impõem limites biomecânicos diferentes, mas as trilhas extremas nivelam o jogo. Segundo ela, as mulheres possuem um limiar de desconforto e dor bastante elevado, lidando de forma eficiente com o desgaste prolongado. Além disso, há uma sensibilidade mais aguçada aos sinais do próprio corpo, permitindo antecipar quadros de desidratação, lesões incipientes ou problemas nos pés antes que eles inviabilizem a continuidade na prova.
Autonomia e a quebra de paradigmas no endurance
Outro ponto crucial do avanço feminino é a confiança adquirida nos ambientes de montanha. Conforme mais mulheres competem e alcançam resultados expressivos em faixas etárias variadas — como atletas masters vencendo percursos de 100 km —, o sentimento de pertencimento se fortalece. A constatação prática de que é possível performar em alto nível estimula a migração para distâncias cada vez maiores.
Apesar do avanço no pelotão, a busca por autonomia ainda enfrenta barreiras culturais. Shubi relatou que decisões simples, como viajar desacompanhada para competir no exterior, ainda causam estranhamento no meio esportivo. Para a atleta, o crescimento do trail running feminino caminha junto com a conquista da independência, mostrando que as corredoras não dependem de grandes grupos de apoio para encarar grandes desafios ao redor do mundo.