Viça Saraiva e a gestão da dor no triathlon aos 48 anos
Com mais de 500 largadas, o triatleta reflete sobre competitividade na elite, estratégia e resiliência diante do luto.
Com mais de 500 provas na bagagem, Viça Saraiva compartilha sua visão sobre competir na elite do triathlon aos 48 anos. O veterano detalha suas escolhas estratégicas no circuito nacional e explica como a aceitação radical o ajudou a superar perdas pessoais e lesões severas.
Manter-se competitivo na elite do triathlon com o passar das décadas exige mais do que condicionamento: demanda uma transformação profunda na relação com a vitória, a derrota e o próprio corpo. No podcast Café com Tri, Viça Saraiva falou abertamente sobre a realidade de alinhar na categoria profissional aos 48 anos, disputando espaço contra atletas mais jovens após mais de 500 provas disputadas ao longo da carreira.
Com a bagagem de quem já experimentou tanto o topo do pódio quanto centenas de derrotas, Viça encara o esporte sem ilusões. Para o triatleta, a longevidade vem acompanhada da habilidade de selecionar batalhas onde ainda é possível buscar resultados expressivos para satisfação pessoal e retorno aos apoiadores, como a vitória conquistada na etapa de Salvador do Circuito Brasileiro de Longa Distância.
Estratégia no circuito e inteligência de prova
Ao vencer a abertura do circuito nacional em Salvador aos 48 anos, Viça se colocou como candidato a um título inédito na carreira de longa distância. O regulamento da competição exige a pontuação em duas das seis etapas do calendário, o que permitiu ao atleta desenhar uma estratégia cirúrgica para pontuar onde suas características e recuperação permitissem.
A abordagem pragmática guia suas decisões dentro e fora da pista. Viça resume sua mentalidade competitiva com simplicidade: as chances de vitória são sempre de 50% — ou ganha, ou não ganha. Essa leitura desarmada tira o peso da cobrança excessiva e foca a energia exclusivamente no que está sob o controle do atleta no dia da largada.
A "administração da dor" e o luto fora das pistas
Além das exigências do esporte, a temporada colocou à prova a resiliência emocional do triatleta. Viça vivenciou perdas consecutivas de pessoas fundamentais em sua trajetória: o falecimento de sua mãe no início do ano, a partida em junho de Zé do Pedal — pioneiro do triathlon em Brasília e tema de um documentário dirigido pelo próprio Viça — e a morte repentina da amiga Raquel no Parque da Cidade.
Para lidar com os impactos emocionais, o triatleta adotou o que define como "aceitação radical". Em vez de fugir do sofrimento, escolheu vivenciar a dor em sua plenitude para, em seguida, retomar o foco no presente e na gratidão pela vida.
Superando lesões e a disciplina do descanso
No aspecto físico, o ano também impôs barreiras severas. Viça enfrentou quatro semanas debilitado por influenza antes da prova em Brasília e, na sequência rumo a Florianópolis, lidou com uma crise aguda na coluna que limitava os treinos. Sob a orientação do técnico Alaque, o atleta precisou aprender a interromper sessões planejadas para não agravar as lesões.
Apoiado em sua espiritualidade e na compreensão dos limites do corpo, Viça reforça que aceitar os momentos em que não é possível largar ou render o esperado faz parte da maturidade atlética. Ao transformar a dor em aprendizado constante, o veterano segue encontrando propósito para seguir em frente no esporte e na vida.