Psycle: psiquiatria, e-bikes e saúde mental sobre duas rodas
Luís Altenfelder explica como uniu medicina e mountain bike para combater estigmas e estruturar reabilitações na trilha.
Em conversa no XTREMMA Sports com Shubi Guimarães, o psiquiatra Luís Altenfelder detalhou a criação do projeto Psycle e a defesa das e-bikes como ferramenta de inclusão esportiva. O médico também adiantou os planos para um documentário sobre o impacto da bicicleta na saúde mental.
A união entre medicina e pedal nasceu de forma orgânica para o psiquiatra Luís Altenfelder. Criador do projeto Psycle, o médico juntou o conceito da psiquiatria ao ciclismo para combater o preconceito em torno dos cuidados com a mente. O símbolo, que une um cérebro a uma coroa de bicicleta, surgiu originalmente em 2017 para estampar duas camisetas de prova na França e logo virou um movimento de identificação entre atletas e pacientes que enxergam a atividade física como aliada direta do bem-estar.
Para Luís, vestir a marca ou participar das iniciativas do projeto é uma forma de naturalizar o tratamento psiquiátrico e quebrar a psicofobia. Longe de pretensões de e-commerce tradicional, a iniciativa arrecada recursos para apoiar atletas, financiar manutenção e limpeza de trilhas e promover o evento anual Psycle All Day, incentivando a prática esportiva regular.
A inclusão pelas e-bikes e a modulação do esforço
Embaixador da Specialized Turbo Levo, o médico defende ativamente o uso das mountain bikes elétricas contra o preconceito de quem rotula a modalidade como facilitação excessiva. Na visão de Luís, o motor assistido funciona como uma ferramenta de inclusão e autonomia, permitindo que pessoas em reabilitação ou com menor condicionamento consigam passar mais tempo na trilha, enfrentem subidas mais duras e pedalem no mesmo grupo que atletas de alto rendimento.
A e-bike viabiliza dosar o esforço de acordo com a necessidade de cada um. Em vez de limitar um treino a uma hora por cansaço precoce, o praticante pode estender a experiência para três horas de estímulo ao ar livre em locais clássicos como a Serra do Japi, o CEMUCAM ou a Cantareira. Para a apresentadora Shubi Guimarães, a tecnologia democratiza os passeios em família e viagens integradas entre ciclistas de diferentes níveis.
O documentário e o papel do esporte no tratamento
Depois de captar imagens e estruturar produções menores em vídeo, o psiquiatra trabalha no desenvolvimento de um documentário focado na história da bicicleta e em seu impacto transformador na vida das pessoas, especialmente na saúde mental.
A relação entre pedal e medicação, contudo, exige responsabilidade clínica. Luís ressalta que a atividade física não substitui remédios em diagnósticos complexos, como no transtorno bipolar, mas melhora significativamente a qualidade de vida e pode permitir a redução de dosagens em planos terapêuticos individualizados. O médico e Shubi também alertam para os riscos do excesso: o esporte precisa respeitar os limites físicos e psicológicos para não se transformar em overtraining ou fonte de estresse, servindo como uma estratégia equilibrada de regulação e redução de danos.