Psycle: o uso da bicicleta na reabilitação psiquiátrica
Projeto do psiquiatra Luís Altenfelder une e-bikes, natureza e pedal para transformar a rotina e a mente de pacientes.
A prática esportiva ganha um papel central no tratamento de saúde mental quando inserida com método. O psiquiatra Luís Altenfelder explica como a bicicleta e o contato com a natureza impulsionam a reabilitação de pacientes sedentários.
Prescrever atividade física dentro do consultório psiquiátrico é uma recomendação frequente, mas fazer um adulto sedentário efetivamente começar a treinar costuma ser o maior obstáculo. Ao longo de cerca de duas décadas de prática clínica, o psiquiatra Luís Altenfelder, o Doc da Psycle, percebeu que apenas orientar não bastava: era preciso criar pontes reais para que o paciente experimentasse o esporte e superasse a resistência inicial.
O primeiro passo e a criação de uma nova identidade
A virada prática aconteceu quando o médico decidiu acompanhar pessoalmente um paciente com quadro de obesidade e sedentarismo na ciclovia do Parque do Povo, em São Paulo. O percurso inicial durou apenas cerca de cem metros, mas serviu de gatilho para uma bateria de exames cardiológicos, a compra da primeira bike e o início de uma rotina estruturada com treinador. Com o tempo, o paciente perdeu 20 kg, adquiriu novos equipamentos e incorporou os hábitos da comunidade do ciclismo, canalizando impulsividade e transformando suas relações cotidianas através de uma nova identidade esportiva.
A entrada das e-bikes e o conceito de bike rehab
Para tornar o acesso ao esporte viável a pessoas sem nenhum condicionamento prévio, o projeto deu um salto entre 2018 e 2019 com a introdução das mountain bikes elétricas. Utilizando a pedalada assistida, os pacientes passaram a conseguir pedalar em terrenos mais desafiadores, como a Serra do Japi, enquanto o médico os acompanhava em uma bicicleta convencional. O modelo, batizado informalmente de bike rehab, combina o esforço físico gradual à imersão em trilhas fechadas.
O contato direto com a natureza é um dos pilares desse trabalho. Afastar-se do excesso de poluição visual e sonora das grandes cidades restaura a sensibilidade e reduz o estresse da rotina urbana. Toda quarta-feira pela manhã, essa dinâmica de trilha e pedal é mantida como ferramenta terapêutica para desenvolver foco, superação do medo e autonomia sobre duas rodas.
Medo, coragem e o aprendizado sobre duas rodas
Essa transição de encarar o desconhecido dialoga diretamente com o aprendizado da bicicleta em qualquer idade. Como pontuado por Shubi no XTREMMA Sports a partir de sua vivência pedagógica em acampamentos, subir na bike envolve dominar fundamentos básicos — começando pela segurança ao frear — e enfrentar obstáculos como pedras e descidas. O medo inicial dá lugar à coragem conforme a pessoa percebe sua capacidade de controle, gerando autoconfiança que se estende para fora das trilhas.