Excesso de proteção e perda de autonomia nas novas gerações
No XTREMMA Sports, Shubi e Luís Altenfelder analisam como a falta de contato com a natureza e o risco afeta os jovens.
A tecnologia e a hiperproteção estão reduzindo a autonomia e a percepção de risco das novas gerações. No XTREMMA Sports, Shubi Guimarães e o psiquiatra Luís Altenfelder discutem como a atividade física e o ar livre constroem resiliência e saúde mental.
A vida moderna trouxe facilidades evidentes, mas também cobrou um preço alto: a perda gradual dos sentidos mais básicos e da capacidade de avaliar riscos. Em conversa no XTREMMA Sports, a apresentadora Shubi Guimarães e o psiquiatra Luís Altenfelder discutiram como o ser humano vem sendo progressivamente "domesticado" pela tecnologia, pela conveniência dos aplicativos e por um modelo de criação excessivamente protetor.
Para Shubi, o distanciamento da natureza fez com que adultos e crianças perdessem noções elementares de tempo, espaço e sobrevivência. Ela compara o comportamento atual à diferença entre o cachorro doméstico e o selvagem: diante de uma ameaça, o animal domesticado busca imediatamente a aprovação do dono, enquanto o selvagem analisa a rota de fuga e calcula o tamanho do perigo por conta própria. Hoje, a dependência cega de recursos como o GPS e a incapacidade de interpretar sinais simples do ambiente — como a chegada da chuva ou a velocidade de um carro na rua — mostram como o instinto de autopreservação foi amortecido.
Ansiedade precoce e a busca por atalhos medicamentosos
Essa comodidade generalizada também altera o funcionamento neurológico. Como explicou Luís Altenfelder, o cérebro evoluiu para poupar energia psíquica, adotando rapidamente atalhos como calculadoras, controles remotos e telas. O efeito colateral dessa hiperconveniência, no entanto, surge na juventude: adolescentes de 13 a 15 anos enfrentam níveis recordes de transtornos de ansiedade — quadro que atinge cerca de 470 milhões de pessoas no mundo, segundo estimativas da OMS citadas pelo médico.
No consultório, Altenfelder observa famílias buscando diagnósticos e medicações psiquiátricas imediatas para lidar com frustrações rotineiras e pressões de desempenho escolar, sem antes ajustar pilares fundamentais da saúde, como sono de qualidade, alimentação adequada e prática diária de atividade física. Embora a farmacologia moderna seja indispensável em muitos casos clínicos, o psiquiatra alerta para a banalização do uso de remédios em jovens que sofrem pela simples ansiedade de aprovação em redes sociais.
A superproteção dos pais como barreira à coragem
Outro ponto crítico levantado no episódio é a postura dos próprios pais, que frequentemente transferem seus medos e inseguranças aos filhos. Com quase duas décadas de experiência organizando acampamentos ao ar livre, Shubi relata que a presença dos responsáveis muitas vezes atrasa a evolução das crianças, já que muitos adultos impedem os filhos de descer uma rampa de bicicleta ou caminhar por um rio sob a alegação preventiva de que "eles não sabem fazer".
Essa cultura do cuidado excessivo e da intervenção constante envia uma mensagem subliminar de incapacidade à criança. Para Shubi, incentivar a independência — seja ensinando os filhos a dizerem "não" no colégio ou permitindo que se desloquem de bicicleta pela cidade — é o caminho para formar indivíduos confiantes e aptos a resolver problemas reais sem depender de supervisão a cada passo.
O corpo e a bicicleta como base para o desenvolvimento mental
O desenvolvimento físico na infância atua como a base da arquitetura cerebral. Altenfelder ressalta que o cérebro humano continua formando sinapses e se estruturando até a terceira década de vida. Por isso, uma infância com mais movimento, esportes e contato com a terra é muito mais rica cognitivamente do que uma rotina restrita a estímulos intelectuais precoces em salas fechadas.
O uso da bicicleta surge como uma ferramenta potente de transformação educacional e comportamental. O psiquiatra citou iniciativas internacionais como a organização Outride, que insere frotas de bikes e trilhas em escolas norte-americanas para auxiliar no foco, na interação social e no manejo do TDAH. Permitir que crianças e jovens explorem seus limites sobre duas rodas e na natureza não é apenas lazer, mas uma estratégia essencial para resgatar a autonomia e a saúde mental.