Flow, medo e resiliência mental no endurance
No XTREMMA Sports, Shubi Guimarães e Luís Altenfelder debatem o equilíbrio entre desafio, habilidade e mente sob pressão.
Entenda a mecânica mental por trás do medo, do estado de flow e da resiliência em provas extremas de endurance, a partir da troca de experiências entre Shubi Guimarães e o psiquiatra Luís Altenfelder.
A relação entre a mente e o corpo no esporte de resistência vai muito além de suportar a dor física. No episódio do XTREMMA Sports, a ultramaratonista e apresentadora Shubi Guimarães e o psiquiatra Luís Altenfelder debateram os mecanismos psicológicos que entram em jogo quando o atleta encara subidas duras, lida com o medo de travar e busca o tão desejado estado de flow.
A equação entre desafio, habilidade e medo
Quando alguém é confrontado com um desafio desproporcional à sua habilidade atual, o cérebro ativa a amígdala — disparando ansiedade e o instinto de sobrevivência. Na bicicleta ou em trilhas técnicas, isso costuma se traduzir em travamento imediato, choro ou desistência. Segundo Luís Altenfelder, a superação desse bloqueio passa pela repetição e pelo apoio do grupo, construindo aos poucos a competência técnica necessária para transformar a ameaça em foco.
À medida que a habilidade cresce e emparelha com o nível do desafio, abre-se a porta para o estado de flow. Trata-se de uma meditação ativa de hiperfoco, onde respiração e movimento tornam-se automáticos e a cabeça se esvazia. Para que o flow aconteça, no entanto, não basta girar em ritmo de passeio: estudos apontam que o gatilho costuma exigir cerca de 4% a mais de esforço do que o habitual, demandando entrega física real.
O diálogo interno e a cobrança na subida
Para Shubi, o esforço exigido em altimetrias severas é uma fonte genuína de prazer e sensação de potência. Ela destaca a conversa mental contínua que acontece no meio de uma inclinação dura: o comando do cérebro para as pernas fazerem força e a resposta positiva do corpo geram uma validação direta do treinamento acumulado.
Quando parar e o peso da desistência
A resiliência também envolve discernimento. Shubi relembrou momentos em que precisou abandonar competições por falência fisiológica genuína — como em uma edição do UTMB, quando sua frequência cardíaca travou em 185 bpm por horas sem baixar e continuar seria negligência com a própria saúde. Em contrapartida, no Swim Man, mesmo engolindo água na natação e sem conseguir comer ou beber na corrida, a ideia de desistir sequer cruzou sua mente.
A atleta também relembrou uma prova longa na França, em 2009, onde a desistência foi estritamente mental: a frustração por não estar desempenhando no nível esperado somada à vontade de encontrar a mãe em Paris a fez parar com 12 horas de prova. Esse tipo de decisão psicológica, segundo ela, costuma deixar marcas e questionamentos por anos, ao contrário das paradas provocadas por emergências médicas claras.
Da percepção subjetiva às métricas aos 50 anos
Após décadas competindo e treinando pela percepção de esforço — dividida simplesmente em fraco, médio e forte —, Shubi decidiu mudar de abordagem ao completar 50 anos. Ao adotar planilhas estruturadas, relógio e potenciômetro, ela combinou sua vasta experiência intuitiva com dados precisos, alcançando um novo patamar de força física e potência no esporte extremo.