Como Júnior Double começou a dobrar os 42 km das maratonas
De um erro de logística no Rio de Janeiro ao frio de Nova York, entenda a origem do projeto do ultramaratonista.
Sem vaga no ônibus para a largada da Maratona do Rio, Júnior Double resolveu ir correndo até o Recreio. A improvisação virou método, inspirou a travessia de Nova York e deu origem ao projeto de dobrar maratonas.
O que começou como uma solução improvisada para um problema logístico transformou-se em uma das trajetórias mais singulares da corrida de rua brasileira. Conhecido por correr o trajeto inverso até a largada antes de disputar os 42 km oficiais, Júnior Double acumula onze provas dobradas no currículo — incluindo desafios de peso como a ultramaratona sul-africana Two Oceans. No Stemma Podcast, o corredor relembrou como a ideia nasceu por puro acaso na capital fluminense.
O esquecimento que virou ultramaratona no Rio
Na Maratona do Rio, cuja largada acontece no Recreio dos Bandeirantes e a chegada no Aterro do Flamengo, o plano padrão dos atletas de fora é hospedar-se próximo à chegada e pegar o transporte oficial até o ponto de partida. Júnior, no entanto, esqueceu de comprar o bilhete de ônibus durante a inscrição. Já habituado ao volume de ultramaratonas, ele descartou táxis e decidiu ir até o Recreio correndo pela madrugada.
Para a empreitada, uniu-se a dois corredores locais que utilizavam a travessia noturna como treino de rodagem para a Ultramaratona dos Anjos Internacional (UAI), prova de 215 km realizada em Minas Gerais. Após cruzar a cidade durante a noite, ele alinhou no pórtico oficial e completou a maratona em 4h02, fechando a jornada com mais de 70 km acumulados no dia.
A travessia de Nova York e o projeto das Majors
A experiência voltou à tona na preparação para a Maratona de Nova York de 2018. Ao se deparar com as opções tradicionais de transporte para Staten Island — passar horas no frio na balsa ou mofar nos ônibus de madrugada —, Júnior investigou se alguém já havia feito o trajeto a pé até a largada. Como não encontrou registros sequer em grupos tradicionais de ultramaratona no Facebook, ele desenhou rotas de contingência (do plano A ao E) e executou a travessia com sucesso.
A dobradinha em solo nova-iorquino gerou grande repercussão em veículos de imprensa nacionais e internacionais. Pouco depois, ao garantir vaga para correr Chicago pela segunda vez — prova onde havia quebrado na estreia —, o atleta decidiu que não retornaria para um percurso convencional. O episódio selou o compromisso de dobrar as etapas do circuito das World Marathon Majors, jornada que também deu origem a uma trilogia de livros sobre os bastidores desses desafios.