O preço da ultradistância e a cultura de montanha na Europa
Manuela Vilaseca detalha a pressão do alto rendimento, os custos reais do esporte e a forte cultura outdoor na Europa.
Competir em ultradistâncias exige ir além do limite físico e encarar uma rotina de altos custos e cobrança mental. Manuela Vilaseca analisa os bastidores do esporte profissional, o papel dos refúgios na Europa e o caminho para o Brasil ganhar visibilidade internacional.
A corrida de montanha e as provas de ultradistância costumam projetar um imaginário de superação épica e conexão plena com a natureza. No entanto, os bastidores do esporte de alto rendimento revelam uma realidade bem mais dura: desgaste físico extremo, pressão psicológica por vitórias e uma logística financeira que quase nunca permite viver apenas de patrocínios.
O limite físico e a pressão por resultados
Para Manuela Vilaseca, encarar dezenas de horas de corrida em terrenos inóspitos não deve ser romantizado como uma prática puramente saudável. Passar noites em claro e submeter a musculatura a volumes descomunais é fruto de paixão, mas cobra seu preço a curto e longo prazo. Esse nível de exigência explica por que muitos atletas que despontam rapidamente no cenário internacional acabam sofrendo lesões graves ou desaparecendo das competições sem conseguir retornar.
Além do corpo, o fator mental pesa fortemente na longevidade dos competidores. Com a profissionalização do trail running, os contratos exigem pódios constantes. O medo de perder patrocinadores após um DNF (não terminar a prova) ou uma sequência de resultados abaixo da expectativa gera uma carga psicológica que empurra boa parte do pelotão de elite para o acompanhamento com psicólogos esportivos para evitar o esgotamento precoce.
O mito do glamour: custos e rotina de trabalho
Ao contrário do que muitos imaginam, estar na elite do trail running raramente significa viver exclusivamente do esporte. Manu pontua que sempre precisou conciliar o trabalho com a rotina de treinos e competições. Na prática, a verba dos patrocinadores atua como um viabilizador para pagar inscrições, viagens e materiais, além de eventuais bônus por desempenho, mas não cobre a totalidade do custo de vida.
Manter a competitividade exige investimentos contínuos em fisioterapia, acompanhamento nutricional, treinador, academia e treinos específicos de força e mobilidade. Durante a preparação para o Tor des Géants, por exemplo, Manu viajou em agosto para o Vale d'Aosta para reconhecer o percurso por duas semanas. A viagem coincidiu com o recesso de seu trabalho — um período sem faturamento em que os custos de hospedagem e logística foram bancados como investimento no próprio rendimento.
Infraestrutura e a cultura outdoor na Europa
Outro abismo apontado na conversa com Sidney Togumi é a diferença cultural no contato com o ambiente de montanha. Em países como Espanha e Suíça, a prática outdoor é intergeracional: crianças e idosos compartilham trilhas com bastões de trekking como parte natural do cotidiano, independentemente de estarem treinando para alguma prova.
Essa cultura é sustentada por uma rede sólida de grandes rotas (GRs) e refúgios de montanha operacionais, como nos circuitos do antigo Cavalls del Vent (atual Ultra Pirineu) e do Carros de Foc, na Catalunha. As pessoas planejam travessias de vários dias dormindo nos refúgios, o que fomenta o turismo outdoor desde a base. No Brasil, embora a comunidade de trilha esteja em expansão, a concentração populacional em grandes centros urbanos e a escassez de infraestrutura de apoio nas serras ainda distanciam a população em geral dessa vivência diária.
O caminho para a visibilidade internacional
Embora os corredores brasileiros viajem cada vez mais para disputar provas na Europa, o reconhecimento do trail nacional no exterior ainda é um processo lento. Para romper a bolha e chamar a atenção da mídia internacional e das grandes marcas, não basta ter boas atuações pontuais: é preciso acumular vitórias expressivas de forma consistente.
Em um cenário global hipercompetitivo — onde o nível técnico feminino e masculino atingiu patamares históricos —, até mesmo uma colocação entre os dez melhores em eventos do porte da UTMB é rapidamente esquecida pelo público geral. Para construir relevância internacional duradoura, a presença constante no topo dos pódios continua sendo a chave.