Como o trail running mudou nos últimos 15 anos
Manuela Vilaseca analisa o salto técnico em nutrição, equipamentos e ritmo, comparando a era roots ao cenário atual.
Em conversa com Sidney Togumi, Manuela Vilaseca detalha a transformação do trail running nos últimos 15 anos. A ultramaratonista compara os primórdios da autossuficiência e escassez de equipamentos com a era moderna de alta performance e transições milimétricas. Ela também explica como as provas de 200 milhas resgatam a essência original do esporte.
Nos últimos 15 anos, o trail running passou por uma transformação radical que redefiniu recordes, equipamentos e a própria mentalidade dos atletas. Em conversa no podcast STEMMA na Trilha, a ultramaratonista Manuela Vilaseca relembrou o início de sua trajetória por volta de 2011 — quando disputou a clássica prova La Misión — e apontou que o motor dessa mudança foi a profunda profissionalização do esporte. Se antes encarar 100 milhas era um enigma cercado de incertezas nos treinos, hoje o esporte é compreendido com base científica e metodologias estruturadas.
Da escassez de material à precisão científica
A evolução técnica fica evidente ao comparar os recursos do passado com os atuais. No início da década passada, o mercado oferecia pouquíssimas alternativas de calçados especializados — basicamente restritos a modelos rígidos da Salomon, sem a variedade de grandes marcas globais presentes hoje nas trilhas. A nutrição esportiva seguia a mesma rusticidade: barras energéticas duras eram a principal opção durante horas de esforço no frio, enquanto hoje os corredores contam com testes laboratoriais avançados para mensurar a perda exata de sódio e calcular reposições personalizadas de carboidratos e eletrólitos.
O ritmo de prova e as transições de Fórmula 1
Essa evolução científica alterou diretamente a dinâmica das competições. Antigamente, provas de 100 milhas começavam em ritmo cauteloso e conversado, e a estratégia básica consistia em sobreviver sem quebrar pelo caminho. Atualmente, o pelotão larga em alta velocidade e sustenta ritmos intensos até o final. Os postos de controle (aid stations) se transformaram em operações de alta velocidade semelhantes a paradas de Fórmula 1: equipes de apoio trocam mochilas preparadas em segundos e abastecem o atleta sem desperdício de tempo. Provas como o UTMB ilustram essa nova realidade, com transições em Courmayeur feitas em cerca de dois minutos e decisões de pódio disputadas na casa dos segundos.
O resgate da autossuficiência nas 200 milhas
Para quem viveu a fase pioneira de autossuficiência pura — como nas edições históricas de La Misión, onde era preciso carregar todo o suprimento e a própria segurança na mochila —, o ritmo ultracompetitivo atual desperta nostalgia. Segundo Manu Vilaseca, é nas provas de 200 milhas que essa conexão original com a montanha e a jornada interior renasce. Distâncias extremas ainda exigem muito mais do que velocidade pura: demandam inteligência de prova, capacidade de gerenciar o sono e resiliência para lidar com o isolamento no meio da natureza.