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Manuela Vilaseca e a redenção no pódio do Tor des Géants

Após cirurgia no menisco, resgate aéreo e crise de asma, a brasileira conquistou o 3º lugar com o tempo de 82h31min.

Em entrevista ao Stemma Na Trilha, Manuela Vilaseca detalha sua virada de chave nas 200 milhas e a estratégia extrema no Tor des Géants. Com apenas uma hora de sono em 82h31min de prova, a atleta garantiu o terceiro lugar e uma das marcas mais rápidas da história feminina do evento.

A trajetória de Manuela Vilaseca nas provas de 200 milhas e ultradistância extrema ganhou contornos de superação absoluta após um período de incertezas na carreira. No fim de 2023, após o encerramento do contrato com seu patrocinador principal, a brasileira enfrentou dúvidas sobre sua continuidade no esporte de alto rendimento. A faísca para seguir em frente veio ao descobrir a ultramaratona Cocodona 250, prova que despertou uma nova obsessão pelo formato e mudou a sua relação com os desafios de longa duração.

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O pesadelo do resgate e a lição da asma por esforço

O caminho rumo ao topo do Tor des Géants teve momentos dramáticos. Em sua primeira tentativa, Manu alinhou apenas seis semanas após uma cirurgia de menisco. Embora o joelho tenha aguentado até o quilômetro 200, a combinação de altitude extrema, frio e alta exigência física desencadeou um quadro severo de asma de esforço. No quilômetro 260, no Refúgio Cunéy, com baixa saturação de oxigênio e dificuldade respiratória aguda, ela precisou ser retirada da montanha por um resgate de helicóptero e encaminhada ao hospital em Aosta.

Com um histórico semelhante de abandono por asma nas 200 milhas da Cocodona, a atleta entendeu que precisava de uma abordagem médica e física rigorosa. Para o retorno ao Tor des Géants, estabeleceu a tese de que o ganho expressivo de condicionamento cardiovascular reduziria as crises respiratórias. Manu passou a treinar o percurso dividido em dez trechos em altitude, com apoio logístico do marido Gerard, chegando à largada pronta para enfrentar as variáveis incontroláveis da prova.

Manuela Vilaseca e a redenção no pódio do Tor des Géants

Superação de crise inicial e disputa pelo pódio

A largada da prova exigiu velocidade imediata para evitar afunilamentos nas primeiras trilhas técnicas. O calor provocou um início de desidratação severa na descida para La Thuile, onde Manu chegou exausta e viu sete competidoras a ultrapassarem. Mantendo a calma em um evento de dezenas de horas, recuperou o ritmo durante a subida ao Refúgio Deffeyes e começou a escalar posições silenciosamente.

Ao passar pela base de Donnas (quilômetro 150), a brasileira já figurava no top 5 feminino e avançava para a disputa direta pelo pódio. No trecho entre Donnas e Gressoney — considerado um dos mais duros da altimetria do percurso —, Manu administrou o esforço ao lado de competidoras de elite como a britânica Claire Bannwarth e corredoras asiáticas, sustentando passadas firmes nas subidas íngremes do Alpenzu.

Apenas uma hora de sono em 82 horas de prova

A estratégia de descanso foi um dos pontos decisivos para o resultado histórico. Manuela dormiu somente cerca de uma hora ao longo de 82h31min de competição. Em Donnas, não conseguiu descansar devido ao barulho na área de macas, acumulando apenas um micro-cochilo involuntário de dois minutos no Refúgio Barmas. A única parada programada para dormir ocorreu em Gressoney (quilômetro 200), onde descansou por 30 minutos antes de retomar a corrida.

A decisão que consolidou sua medalha de bronze aconteceu na base de Valtournenche. Em vez de utilizar o tempo para banho, massagem e novo sono, Manu abriu mão do conforto para manter o ritmo de corrida e ampliar a vantagem sobre as adversárias diretas. O esforço culminou no 3º lugar geral feminino, registrando o sexto melhor tempo feminino de toda a história do Tor des Géants.

A exigência biomecânica das descidas intermináveis

Para Manuela, o maior diferencial técnico para finalizar e competir na ponta do Tor des Géants reside na capacidade muscular de correr em declives acentuados. A prova apresenta descidas contínuas que chegam a 30 quilômetros de extensão, exigindo preparação excêntrica específica para não comprometer a musculatura e garantir velocidade constante até a linha de chegada em Courmayeur.

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