Manuela Vilaseca: do início no trail ao pódio nas 200 milhas
Pioneira do esporte reflete sobre a evolução das ultramaratonas, a vida na Europa e o 3º lugar histórico no Tor des Géants.
Em conversa com Sidney Togumi no Stemma Na Trilha, Manuela Vilaseca repassa sua trajetória de mais de uma década no trail running internacional. A atleta detalha a migração das provas clássicas para o universo das 200 milhas e os bastidores de suas maiores conquistas.
Com mais de uma década dedicada ao endurance de montanha, Manuela Vilaseca construiu uma carreira que se confunde com a própria história recente do trail running brasileiro. Em conversa com Sidney Togumi no Stemma Na Trilha, a atleta relembrou desde os primeiros passos nas corridas de aventura até a consagração em ultramaratonas extremas de 200 milhas, trazendo reflexões sobre bastidores, desafios físicos e a rotina do alto rendimento.
A trajetória de Manuela Vilaseca e o início no trail running
Formada em desenho industrial, Manuela começou no mundo multiesportivo com corridas de aventura, triatlo e provas de mountain bike. A transição definitiva para a corrida em trilha ocorreu em 2011, quando decidiu acompanhar o irmão na ultramaratona La Misión, na Patagônia argentina. A vitória logo na estreia garantiu seu primeiro grande patrocínio com a The North Face, abrindo as portas para sua consolidação no cenário competitivo.
A evolução do trail running nos últimos 15 anos
Ao comparar o início da sua jornada com o cenário atual, Manu aponta a profissionalização radical do esporte como o divisor de águas. O avanço em estudos de nutrição esportiva, hidratação personalizada e o salto tecnológico nos calçados transformaram provas de 100 milhas em disputas velozes decididas nos detalhes de cada posto de controle, substituindo o formato rústico e autossuficiente do passado por transições quase cirúrgicas.
Adaptação na Europa, resultados internacionais e visibilidade no Brasil
Após se mudar para a Catalunha, na Espanha, a corredora enfrentou um longo processo de adaptação pessoal e esportiva. Manu acumulou dois top 10 na lendária UTMB, pódios em provas duríssimas como a TDS, a Transgrancanaria e o Marathon des Sables, além de bater recordes na Tríplice Coroa das 200 milhas. No episódio, ela reflete sobre a distância geográfica e a falta de memória do público brasileiro em relação às conquistas dos pioneiros da modalidade.
Os bastidores do esporte profissional e a cultura de montanha
Manu discute com franqueza a realidade financeira e o impacto físico das ultramaratonas, enfatizando que correr distâncias extremas não é uma prática inerentemente saudável. A atleta aborda as cobranças psicológicas por resultados de alto nível e destaca a marcante diferença cultural entre a Europa — onde o trekking e o uso de refúgios fazem parte da rotina familiar — e a realidade das grandes cidades brasileiras.
A volta por cima nas 200 milhas e o pódio no Tor des Géants
O momento mais marcante do bate-papo detalha o renascimento esportivo da atleta nas provas acima de 300 quilômetros. Superando um histórico de asma de esforço em altitude que havia forçado abandonos anteriores, Manu montou uma estratégia implacável no Tor des Géants: dormiu apenas uma hora ao longo de 82h31min de prova e conquistou um histórico 3º lugar geral feminino, estabelecendo um dos tempos mais rápidos já registrados na competição italiana.
Próximos objetivos, patrocinadores e uma história inusitada
Olhando para o futuro, Manu projeta seu retorno à icônica ultramaratona Cocodona nos Estados Unidos e celebra as parcerias com marcas como Mount to Coast e Tailwind. Para encerrar o encontro, ela resgatou um momento bem-humorado da carreira ao relatar o dia em que levou uma chifrada de um boi durante um trecho de ciclismo em uma prova e ainda assim cruzou a linha de chegada.