O 'boom' do trail running e o impacto nas comunidades locais
Depa e Sidney Togumi analisam a expansão global das corridas de montanha e o desafio de conviver com as cidades-sede.
O trail running vive uma fase histórica de profissionalização, transmissão ao vivo e quebra de recordes em todo o mundo. No entanto, o crescimento acelerado traz desafios diretos para a rotina e a infraestrutura das cidades que recebem os grandes eventos.
O trail running internacional vive um momento histórico de amadurecimento e visibilidade. Após marcos como o Mundial de Penyagolosa em 2018 e a retomada pós-pandemia, a modalidade viu a entrada massiva de grandes marcas, o avanço das transmissões ao vivo e a evolução veloz de jovens atletas de 18 a 24 anos. Em provas icônicas como o UTMB, os recordes caem ano após ano, mostrando que o esporte ainda não atingiu o seu teto técnico.
A montanha como arena viva
Essa expansão, contudo, impõe uma reflexão necessária sobre sustentabilidade social. Diferente do futebol ou de esportes de arena, o palco do trail running não é o Camp Nou, o Santiago Bernabéu ou o Maracanã. As provas acontecem em montanhas e vales habitados por comunidades que possuem dinâmicas próprias, rotinas de trabalho e estilos de vida consolidados.
O impacto da invasão de milhares de atletas e acompanhantes gerou debates recentes em polos tradicionais, como Chamonix, na França. Quando a cidade atinge a lotação máxima durante a semana do UTMB, os moradores locais enfrentam escassez de vagas de estacionamento, comércio saturado e alterações drásticas no cotidiano. Para quem vive na região e não está diretamente envolvido no evento, o fim de semana pode se tornar um transtorno logístico.
O paralelo com o cenário brasileiro
Essa realidade não é exclusividade dos Alpes europeus. No Brasil, municípios históricos e de menor porte passam por cenários semelhantes ao sediar grandes provas de montanha. Em Paraty, por exemplo, cuja população urbana gira em torno de 15 mil habitantes, a chegada de quase 6 mil atletas para eventos de trilha dobra temporariamente o contingente de pessoas na cidade, esgotando a rede hoteleira e pressionando o trânsito local.
Responsabilidade individual e convivência
Embora a gestão de fluxo, tráfego e infraestrutura dependa de políticas públicas e decisões tomadas pelos organizadores em conjunto com as autoridades municipais, o comportamento individual do corredor desempenha um papel determinante na preservação do esporte.
Atitudes simples minimizam o atrito com as comunidades anfitriãs: respeitar as vagas de estacionamento regularizadas, utilizar transporte público, deslocar-se a pé ou de bicicleta e manter o consumo consciente no comércio local. Cuidar do entorno e respeitar as regras cívicas da cidade anfitriã é tão essencial para o futuro do trail quanto a preservação das próprias trilhas naturais.