João Bizerra: bastidores do circuito mundial de águas abertas
Técnico relembra provas de 25 km na Itália, o circuito de travessias no Canadá e a evolução da maratona aquática.
Em conversa no Natação Stemma, o experiente treinador João Bizerra resgata causos históricos das águas abertas internacionais na década de 1990. Entre percursos desafiadores no Canadá e na Itália, ele detalha o espírito pioneiro da modalidade.
Muito antes de a maratona aquática alcançar o status olímpico oficial e contar com previsões meteorológicas em tempo real por aplicativo, desbravar as provas de longa distância pelo mundo exigia uma dose extra de coragem e improviso. No episódio #50 do Natação Stemma, o treinador e árbitro internacional João Bizerra relembrou histórias marcantes do início da década de 1990, quando levou atletas brasileiros para competir nos circuitos mais duros do planeta.
A inserção no cenário internacional ganhou força por volta de 1991, incentivada por Igor de Souza, um dos grandes pioneiros da modalidade no Brasil. Com o nadador Alex Taqueda sob sua orientação, Bizerra partiu para uma sequência de quatro provas no Canadá — passando por cidades tradicionais como Roberval, Magog e Saint-Jean — em percursos que superavam os limites das ultramaratonas aquáticas da época.
Desafios no Canadá e o sprint inusitado
Entre as lembranças no circuito canadense, uma história curiosa em Magog se destacou pelo formato da disputa de sprint pré-evento. A prova promocional de 3 km exigia que os nadadores fizessem 1.500 metros até uma plataforma flutuante, engolissem um hambúrguer do patrocinador e nadassem de volta. Com velocidade pura e sem perder tempo na mastigação, Alex Taqueda garantiu a vitória e uma premiação de 3.000 dólares, o que acabou garantindo o custeio de transporte e suporte para o restante da viagem.
A viagem também abriu portas para uma convivência estreita com nadadores e treinadores experientes da América do Sul, como o lendário argentino Claudio Plitt, fortalecendo laços entre as equipes no circuito que depois seguiria para etapas nos Estados Unidos, incluindo a tradicional prova em Atlantic City.
Tempestade na Itália e pódio nos 25 km
Outro capítulo emblemático ocorreu na Itália, nas provas que envolviam a região de San Felice Circeo e a Ilha de Ponza, percursos que serviam de preparação e evento-teste para competições mundiais. Ao lado de Alex Taqueda e Ricardo Sato, Bizerra enfrentou uma prova de 25 km marcada por condições extremas.
Acompanhando o ritmo da consagrada nadadora australiana Shelley, Taqueda encarou um mar revolto durante a madrugada. Sob uma tempestade severa, com ondas gigantes e apenas sinalizadores luminosos fixados nas toucas para localização a partir dos barcos de apoio, o atleta brasileiro cruzou a linha em 3º lugar geral, superando inclusive a própria nadadora australiana e garantindo convites e premiações para novas travessias na costa italiana.
Aclimatação rústica e a base da modalidade
Para suportar a água gelada das provas na América do Norte e na Europa sem os recursos tecnológicos atuais, o treinamento era feito na raça. A preparação envolvia treinos frequentes na Represa Billings e sessões na piscina não aquecida do Círculo Militar de São Paulo, habituando os atletas ao choque térmico.
Com atuação também como árbitro em grandes eventos — incluindo a Olimpíada do Rio 2016 e provas demonstrativas anteriores —, Bizerra destacou como a essência das águas abertas foi moldada por essas experiências rústicas que abriram caminho para a profissionalização do esporte.