A evolução dos tênis de corrida dos anos 90 aos dias de hoje
Como a busca por leveza e a obsessão pelo teste de pisada moldaram os calçados e o comportamento dos corredores no passado.
Nos anos 90 e 2000, o mercado de corrida enfrentava um dilema básico: amortecimento pesado ou calçados mínimos para buscar leveza. Entenda como o perfil do corredor e o mito do teste de pisada marcaram essa fase.
A corrida de rua atual conta com espumas de altíssimo retorno de energia, placas de carbono e modelos maximalistas ultraleves. No entanto, o cenário era bem diferente para quem buscava um calçado de performance entre os anos 1990 e início dos anos 2000. Naquela época, a limitação dos materiais impunha uma escolha dura ao atleta: correr com modelos extremamente pesados ou abrir mão quase total do amortecimento.
O dilema da entressola: peso contra amortecimento
Nos anos 90, os tênis de corrida eram considerados verdadeiros "tijolos" quando ofereciam amortecimento. O peso do calçado ficava concentrado quase todo no solado e na entressola. Para conseguir um tênis leve voltado a desempenho, a indústria precisava cortar o material de EVA ao mínimo, gerando calçados com solas finas que se assemelhavam a uma meia no pé. O atleta focado em performance acabava exposto a uma corrida quase descalça, pela simples ausência de materiais leves que pudessem proteger as articulações sem adicionar gramas excessivas.
A grande revolução dos materiais de amortecimento é recente. Até que espumas modernas fossem desenvolvidas, o equilíbrio entre leveza e absorção de impacto era um desafio técnico que a indústria simplesmente não conseguia solucionar.
O foco absoluto na prevenção de lesões e a era do teste de pisada
O perfil do corredor que chegava às lojas especializadas nessa época era amplamente influenciado por treinadores, assessorias esportivas e profissionais de saúde. A narrativa predominante girava em torno da prevenção de lesões: acreditava-se que o calçado existia fundamentalmente para impedir que o atleta se machucasse.
Esse ambiente impulsionou a segmentação de mercado baseada no teste de pisada. Os corredores eram categorizados em grupos rígidos — pronadores, supinadores e neutros — e direcionados a tênis com controles mecânicos de estabilidade. Com o avanço do tempo e da literatura esportiva, essa classificação estrita perdeu relevância prática e científica, revelando-se mais uma estratégia comercial da indústria da época do que uma exigência de saúde biomecânica comprovada.
O tema foi debatido durante o episódio do Se Liga Nelas, que também abordou outros momentos dos 30 anos de história e atendimento especializado no ecossistema da corrida no Brasil.