Empatia nos bastidores: as histórias de Poliana Moraes no trail
Em conversa com Sidney Togumi, a produtora relembra momentos marcantes com atletas e o peso das decisões na arena.
Nos bastidores de uma grande prova de montanha, a logística exige tanto rigor técnico quanto sensibilidade humana. A produtora de eventos Poliana Moraes compartilha relatos de empatia, desde o resgate de uma chave antes da largada até o peso emocional das regras de corte.
Organizar uma grande prova de trail running vai muito além da montagem de estruturas e do cumprimento de cronogramas. Nos bastidores, a sensibilidade para lidar com o desgaste e a ansiedade dos atletas define a experiência de quem está na linha de largada. No podcast Stemma Na Trilha, com Sidney Togumi, a produtora de eventos Poliana Moraes relembrou situações em que a empatia e a escuta ativa foram determinantes para transformar momentos críticos em superação.
O resgate da chave perdida na La Misión
Durante uma edição da prova La Misión, Poliana se deparou com um grupo de atletas desesperado pouco antes da largada noturna. Uma das corredoras havia perdido a chave do carro onde estavam guardados todos os documentos e os kits dos companheiros de equipe, gerando enorme tensão entre os amigos. A atleta, sob forte cobrança, já pensava em desistir da prova antes mesmo de começar.
Ao refazer mentalmente o trajeto curto percorrido pela corredora até a tenda de drop bag, Poliana deduziu que a chave poderia ter caído dentro da própria sacola de transição. Embora a área estivesse lotada com centenas de volumes, a produtora lembrou da orientação de separação em lotes de 100 unidades que havia passado à equipe pela manhã. Poliana localizou a bolsa exata, rompeu o lacre diante da atleta e encontrou a chave, garantindo que a corredora largasse com tranquilidade e completasse uma de suas melhores provas.
Madrugada na arena e a lição do atleta cego
Outro relato marcante aconteceu durante a montagem solitária de uma arena na madrugada. Enquanto aguardava com cansaço o atraso de um caminhão de materiais, Poliana foi abordada por um grupo de corredores sob o pórtico que pedia uma foto. Ao interagir com o grupo, percebeu que um dos atletas tinha deficiência visual e havia viajado mais de 18 horas para realizar a prova dos seus sonhos, agradecendo calorosamente pelo trabalho da equipe de montagem.
A história ganhou um desfecho emocionante e difícil na linha de chegada. O corredor completou o percurso, mas ultrapassou o tempo limite de corte por questão de segundos. Pelo regulamento oficial da prova, ele não era considerado finisher e não tinha direito à medalha de conclusão, gerando grande comoção na equipe.
Diante da recusa oficial da organização em flexibilizar a regra do evento, a situação mobilizou os presentes na arena. Celinho, atleta que venceu a competição naquele ano, percorreu o espaço tentando localizar o corredor para presenteá-lo com a sua própria medalha de campeão, evidenciando o espírito de acolhimento e a camaradagem que marcam o ambiente do trail running.