Maternidade, culpa e a decisão de deixar o alto rendimento
Maíra explica como a rotina com as filhas e o esgotamento ditaram o fim de um ciclo competitivo no ciclismo amador.
Após atingir o auge físico e vencer o Haute Route, Maíra decidiu abandonar as planilhas e a alta performance. A ciclista relata como a culpa materna e o desejo de estar presente na vida das filhas motivaram sua virada de chave no esporte.
Dedicar-se ao esporte amador no mesmo nível de exigência de um atleta profissional cobra um preço alto em outras áreas da vida. Para Maíra, conhecida na comunidade do ciclismo como Japa, essa equação ficou evidente quando a busca por resultados começou a disputar espaço com a presença familiar. Durante quase dois anos, ela chegou a tirar um período sabático da vida profissional para conseguir conciliar a rotina da casa, as filhas e a rotina exaustiva de treinos. No entanto, a exigência física constante trouxe uma consequência direta: a falta de energia nos momentos fora da bicicleta.
A rotina de preparação não envolvia apenas as horas em cima da bike, mas renúncias diárias no descanso, na alimentação e nos compromissos sociais. Ao retornar dos treinos longos e viagens de preparação, o cansaço acumulado limitava a convivência de qualidade com as meninas, que começavam a notar e demandar uma presença mais ativa e participativa.
A pergunta das filhas e a virada de chave
O ponto de inflexão aconteceu em julho de 2024, pouco depois de Maíra alcançar o ápice de sua forma física no ciclismo. Em junho daquele ano, ela havia batido suas melhores marcas pessoais de potência, endurance e consumo de oxigênio. Campeã do Haute Route em 2023, ela se preparava para disputar novamente o Haute Route Alps, quando uma conversa com as filhas durante as férias na Europa transformou sua perspectiva.
Ao ser questionada pelas meninas se poderia 'não ser saudável' durante o período de férias com elas, Maíra percebeu o impacto que a obsessão com a rotina de treinos e dieta causava no convívio familiar. O choque emocional fez com que ela reavaliasse as prioridades e decidisse que aquele seria o encerramento do seu ciclo de alto rendimento.
Ressignificando a relação com a bicicleta
Maíra manteve a participação no Haute Route Alps de 2024, mas com uma abordagem totalmente diferente da anterior: abriu mão da disputa pelo título para pedalar com foco na experiência e na diversão, sem a pressão dos números. Logo em seguida, ela interrompeu o seguimento de planilhas rígidas e o monitoramento exaustivo de dados.
A mudança de fase não significou o abandono do ciclismo, mas sim a volta a uma relação mais leve e funcional com o esporte. Longe das métricas de desempenho no Strava e do uso constante de ciclo computadores, a bicicleta voltou a ocupar o papel de lazer e meio de transporte, permitindo que ela retomasse a carreira profissional e mantivesse a presença exigida pela rotina familiar.