Fraude no esporte: o papel educador de técnicos e assessorias
No Café com Tri, Roberto Abrahao e os apresentadores debatem segundas chances, ética e o limite entre punição e cancelamento.
Diante de cortes de caminho e casos de doping no esporte amador, surge o dilema entre banimento e reeducação. No Café com Tri, o debate foca no papel fundamental dos treinadores como guias éticos além da planilha.
No ambiente do esporte amador e de alto rendimento, o que fazer quando um atleta corta caminho, burla regras ou recorre ao doping? A discussão sobre a concessão de uma segunda chance e a postura das assessorias esportivas esteve no centro do debate no episódio #57 do Café com Tri, com a participação de Roberto Abrahao, criador do projeto Um Golpe por Milha.
Reconhecimento do erro e a quebra da racionalização
Para Roberto Abrahao, a concessão de uma nova oportunidade a quem cometeu uma irregularidade depende diretamente da postura do infrator. Com base em sua experiência com auditoria de fraudes corporativas, ele destaca que o padrão comum de quem comete deslizes é tentar se convencer internamente de que não fez nada grave. O atleta racionaliza a atitude errada — comparável a desculpas corporativas —, criando justificativas para não admitir a falha.
A redenção no ambiente esportivo exige a admissão clara do erro e a vontade genuína de mudança. Ainda assim, Abrahao pontua que a recuperação da confiança não é imediata: quem erra precisa ter consciência de que conviverá com um período inevitável de desconfiança até comprovar, com atitudes consistentes e novos resultados, que o caso foi um episódio isolado.
Treinador como educador e a dosimetria da punição
Ao abordar a rotina das assessorias esportivas, os apresentadores Beto Nitrini, Sérgio Magalhães e Wagner Spadotto reforçaram que o papel do treinador vai muito além de prescrever ritmos, treinos de natação, bike ou corrida. O técnico atua diretamente como um educador, transmitindo valores éticos e a filosofia do esporte.
Para Beto Nitrini, simplesmente expulsar um aluno que cometeu uma infração — seja uso indevido de substâncias ou atalhos em provas — transfere o problema para outra equipe sem resolver a raiz do comportamento. O caminho indicado é o acolhimento para uma conversa franca, na qual se esclarece o erro. Nitrini enfatizou que a aplicação de penas deve seguir a dosimetria e o princípio de que justiça não é vingança, evitando medidas desproporcionais que empurrem o atleta para o isolamento social ou problemas de saúde mental.
Contra o linchamento virtual
Outro ponto central foi a rejeição ao linchamento público e à exposição punitiva nas redes sociais. Os participantes apontaram que a cultura do cancelamento digital muitas vezes prioriza engajamento e visualizações em vez da resolução pedagógica do problema.
Sérgio Magalhães pontuou que a relação com a assessoria exige respeito à autoridade técnica e moral do professor. É responsabilidade da equipe criar um espaço seguro para dialogar quando desvios de conduta forem identificados, oferecendo a chance de realinhamento antes de qualquer medida extrema de rompimento.