Índice de Boston, rotina e saúde mental: o ciclo de Che Fanti
Entre a busca pelo sub-3h24 e uma transição de carreira, a corrida virou refúgio emocional e âncora de disciplina.
Em conversa no Girls Who Run, Marcella Fanti detalha a preparação para a Maratona de Buenos Aires em busca do índice de Boston. Ela explica como o volume de até 80 km semanais serviu como pilar de estabilidade mental durante um período de incertezas profissionais.
A decisão de buscar o índice para a Maratona de Boston nasceu logo após um resultado expressivo na Meia Maratona do Rio, onde Marcella Fanti cravou 1h36 no ritmo de 4:36/km. Com um histórico de 3h30min12s na Maratona de Nova York, o índice oficial para sua faixa etária era de 3h30, mas a margem de corte exigia buscar uma marca em torno de 3h24 (pace aproximado de 4:52/km). Em conversa com o treinador Nelson, a Maratona de Buenos Aires despontou como o cenário ideal para a tentativa.
A planilha como refúgio em meio à instabilidade profissional
O início dos treinos coincidiu com uma demissão e uma fase de profundas incertezas na carreira aos 34 anos. Em meio a crises de ansiedade, oscilações de autoestima e a busca por novos rumos profissionais, o ciclo de maratona assumiu um papel diferente do habitual: tornou-se a única rotina previsível do dia a dia. Mesmo com o cansaço físico, levantar cedo para cumprir a planilha funcionava como um alívio mental e uma estrutura em um momento em que todo o resto parecia desorganizado.
Embora a corrida mantivesse a disciplina em alta, a cabeça dividida com questões financeiras e profissionais fez com que a conexão emocional com a meta de Boston ficasse em segundo plano durante boa parte dos meses de preparação. O compromisso com a prova era executado com rigor, mas sem o foco obsessivo comum a ciclos de performance máxima.
Volume de 80 km e superação de dores musculares
Em termos de quilometragem, este foi o ciclo mais volumoso da corredora, atingindo um pico de 80 km semanais distribuídos em seis dias de treino. No entanto, o aumento de carga trouxe desafios físicos: dores intensas no adutor e no posterior de coxa, associadas a um quadro de tendinopatia glútea decorrente da falta de fortalecimento prévio no primeiro semestre.
Para contornar o problema sem interromper a preparação, o ritmo dos treinos longos foi temporariamente reduzido e o trabalho de fisioterapia intensificado. O resultado permitiu completar treinos decisivos de confiança, como um longo de 30 km rodando no Parque Ibirapuera e outro de 32 km sob chuva intensa e vento forte, ambos sem dor residual.
Cuidados pré-prova, alimentação e redes sociais
Por conta do corte de despesas após a perda do emprego, o acompanhamento com nutricionista foi adiado para a reta final da preparação. A ansiedade acumulada no período refletiu na alimentação, resultando em ganho de peso no mês que antecedeu a prova, embora a estratégia intra-treino com gel de carboidrato e hidratação a cada 3 km tenha se mantido consistente com as maratonas anteriores.
Nas redes sociais e na relação com patrocinadores como a Under Armour, a pressão externa foi praticamente nula. Justamente por enxergar o esporte como um espaço de descompressão pessoal e não apenas como produção de conteúdo, Che optou por viver os treinos longe da superexposição, mantendo o processo como um compromisso exclusivo com sua própria saúde e evolução nas pistas.