Fernanda Maciel: White Flow, recordes e o susto no Denali
A ultramaratonista detalha a união de causas sociais a FKTs extremos e relembra o resgate dramático em greta no Alasca.
Fernanda Maciel explica como une projetos sociais aos recordes de velocidade nas montanhas mais altas do planeta. A atleta também relembra o acidente no Denali, onde sobreviveu a uma queda em uma greta glacial.
Criado em 2012, o projeto White Flow nasceu da necessidade de Fernanda Maciel de transformar o esforço individual das provas de endurance em impacto real. Ao perceber que as vitórias esportivas não bastavam por si só, a atleta passou a desenhar desafios extremos associados a causas sociais e ambientais em diferentes partes do mundo.
A estreia do projeto aconteceu nos 800 km do Caminho de Santiago, percorridos em dez dias para arrecadar fundos para crianças com câncer. O modelo se repetiu em ações na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e na subida e descida em velocidade no Monte Elbrus, na Rússia, onde a corrida deu visibilidade e apoio a mulheres vítimas de exploração sexual.
Alta velocidade e os Sete Cumes sem oxigênio suplementar
Em paralelo às causas sociais, Fernanda levou o trail running para as montanhas mais altas de cada continente, buscando registrar o menor tempo feminino conhecido (FKT) na subida e descida, sem uso de oxigênio suplementar. A abordagem subverte a logística tradicional do montanhismo: trajetos que exigem semanas de marcha são concluídos em poucas horas de corrida.
No Aconcágua, percurso que expedições convencionais realizam em até três semanas, Fernanda completou a rota em 14 horas. No Kilimanjaro, que costuma exigir sete dias de caminhada, o tempo foi de 7 horas; no Elbrus, cumprido normalmente em três dias, a descida foi finalizada em 5 horas. A lista inclui passagens pela Pirâmide Carstensz, na Oceania, e pelo Monte Vinson, na Antártica, consolidando a presença nas principais montanhas do planeta.
Para manter a velocidade em terrenos congelados, a brasileira corre com tênis de trail running onde a regra é o uso de botas triplas de alta montanha. A escolha do equipamento reduz o peso e permite correr no gelo e na rocha com crampons, mas exige tolerância extrema ao frio e precisão milimétrica nas passadas em trechos técnicos como o Matterhorn e o Mont Blanc.
O acidente no Alasca e a queda na greta glacial
A busca por marcas extremas também impõe momentos críticos. Durante a expedição ao Denali, no Alasca, Fernanda enfrentou cerca de duas semanas presa na barraca devido a nevascas intensas. Prestes a desistir da tentativa, sofreu uma queda em uma greta oculta durante uma subida para captação de imagens.
A queda resultou em uma fratura no ombro e deixou a corredora entalada na fenda de gelo, sob risco iminente de asfixia caso a camada superior de neve fofa desmoronasse. O resgate foi executado por alpinistas parceiros que estavam no local em cerca de uma hora, mas as condições meteorológicas exigiram uma espera prolongada até o dia seguinte para a evacuação por helicóptero.
Aclimatização e a humildade de recuar
Fernanda destaca que a preparação para correr em altitude extrema exige aclimatação específica na própria montanha, já que morar em cidades alpinas como Chamonix — situadas a cerca de 900 metros — não confere adaptação automática para além dos 5.000 ou 8.000 metros.
Na tentativa no Everest, onde correu sem oxigênio artificial, o ataque ao cume foi interrompido por problemas físicos enfrentados por seu sherpa. Para a atleta, a sobrevivência e a longevidade no endurance de montanha dependem diretamente da humildade de aceitar as condições impostas pela natureza e saber abandonar o objetivo quando a segurança está comprometida.