Fernanda Maciel: da transição ao topo do trail running mundial
A ultramaratonista detalha suas vitórias internacionais e desconstrói o mito de que brasileiros precisam morar na Europa.
Em conversa no XTREMMA Sports, Fernanda Maciel relembra suas primeiras provas internacionais e o caminho até acumular pódios no Ultra-Trail du Mont-Blanc. A atleta também analisa a preparação de elite e reforça que a falta de grandes montanhas no Brasil não é desculpa para não vencer lá fora.
A transição das corridas de aventura para as ultramaratonas de montanha não foi fruto de um planejamento calculado para Fernanda Maciel. A mineira, que já utilizava a corrida como meio de transporte e rotina diária, começou a competir em provas internacionais a convite de marcas e eventos enquanto conciliava a vida esportiva com o trabalho na área jurídica. Seu primeiro grande sinal de afinidade com a modalidade veio na Nova Zelândia, ao registrar 1h28 em uma meia maratona de montanha no Lake Wakatipu — um tempo equivalente ao que fazia no asfalto.
Carreira dupla e disciplina diária
Mesmo disputando provas de destaque na Europa e nos Estados Unidos, Fernanda manteve uma atividade profissional paralela, atuando no direito e dividindo seu tempo entre São Paulo e Madri. A rotina exigia treinos a partir das 5 horas da manhã e viagens aos fins de semana para competir. Para a atleta, sustentar outra fonte de renda e uma carreira além do esporte sempre foi uma prioridade consciente, compartilhada por grande parte dos atletas de elite do trail running internacional.
Pódios no circuito mundial e grandes conquistas
Os resultados expressivos vieram rapidamente. Em 2009, Fernanda venceu a TDS (na época com cerca de 115 km), prova que integra o festival do Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTMB), evento no qual acumulou quatro pódios e nove participações. Ao longo da carreira, conquistou vitórias de peso no circuito mundial, como a Transgrancanaria, o Ultra-Trail Mt. Fuji no Japão e a Lavaredo Ultra Trail nas Dolomitas, além de dois pódios no Marathon des Sables e títulos no Brasil, como o Endurance Challenge nas Agulhas Negras.
Treino de elite e a parceria com grandes nomes
A convivência com nomes de ponta do esporte, como Rory Bosio, Emelie Forsberg e Stephanie Howe, impulsionou a consistência competitiva de Fernanda. O intercâmbio de treinos e o rigor na preparação ajudaram a mineira a superar desafios técnicos e físicos, incluindo a recuperação de uma lesão cerebral decorrente de traumatismo craniano, antes de direcionar seu foco para projetos de alta montanha e recordes em longas distâncias.
O mito da Europa e a adaptação nos treinos
Fernanda refuta a ideia de que um atleta brasileiro só pode atingir a elite internacional se morar nos Alpes ou nos Pirineus. Tendo conquistado grandes provas enquanto residia em São Paulo, ela enfatiza que a chave está no volume acumulado, na repetição em inclinações locais e na estratégia. Para compensar a falta de altitude contínua, a atleta recomenda períodos específicos de aclimatação e reconhecimento de percurso nas semanas que antecedem as provas-alvo, adaptando a mente para encurtar psicologicamente as grandes distâncias.