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Como Fernanda Maciel cruzou os Pirineus em autossuficiência

Ultramaratonista percorreu 800 km com 40 mil metros de ganho de altimetria, desafio registrado no documentário Tala.

Em conversa com Shubi Guimarães no XTREMMA Sports, Fernanda Maciel detalhou a travessia de 800 km pelos Pirineus em estilo self-supported. A atleta enfrentou terreno selvagem, desnível de até 40 mil metros e forte estresse psicológico, jornada que virou o documentário Tala.

Considerado pela própria Fernanda Maciel como o projeto mais difícil de toda a sua carreira, a travessia integral dos Pirineus exigiu da ultramaratonista brasileira uma combinação extrema de resistência física, técnica de montanha e autocontrole. Ao longo de aproximadamente 800 km e entre 35.000 e 40.000 metros de desnível positivo, a atleta cruzou a cordilheira de forma solitária e autossuficiente, em um percurso que a maioria dos montanhistas leva cerca de 45 dias para completar.

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A logística minimalista do estilo self-supported

A atleta esclareceu que a expedição foi realizada no formato self-supported (autossuficiente com abastecimento local) e não unsupported (sem qualquer suporte externo). Em uma travessia dessa extensão, carregar comida e equipamentos para dezenas de dias tornaria a corrida inviável pelo peso da mochila. Fernanda optou por uma estratégia estritamente minimalista, carregando cerca de 5 kg nas costas, com alimento suficiente para três dias, reabastecendo conforme passava pelos refúgios de montanha ao longo da rota.

Essa abordagem exigiu uma velocidade constante de deslocamento. Enquanto praticantes de trekking necessitam de barracas por não alcançarem os refúgios em um único dia, Fernanda utilizava sua capacidade de corrida para conectar pontos distantes, cobrindo trechos que levavam até sete horas contínuas de corrida entre uma base e outra. Seus períodos de descanso eram reduzidos ao mínimo: dormia cerca de duas horas nos refúgios ou recorria a breves cochilos no meio da montanha antes de retomar a marcha.

Como Fernanda Maciel cruzou os Pirineus em autossuficiência

Riscos reais, terreno selvagem e controle mental

Além da exigência física, os Pirineus impuseram condições severas de isolamento e perigo iminente. Durante o período em que esteve na rota, dois montanhistas sofreram quedas fatais na região devido ao terreno íngreme e trechos de neve congelada, obrigando a brasileira a desviar de trechos bloqueados. Sem sinal de celular na maior parte do trajeto e enfrentando tempestades diárias de verão, qualquer erro ou falta de suprimentos colocaria a vida da corredora em risco imediato.

A privação contínua de sono aliada à adrenalina constante elevou os níveis de cortisol a patamares que Fernanda descreveu como inéditos em sua trajetória. Para manter a clareza e evitar crises de pânico diante do isolamento absoluto, a atleta precisou aplicar técnicas rigorosas de respiração consciente ao longo do percurso, restabelecendo a calma para tomar decisões em terrenos expostos.

Navegação offline e o registro no filme Tala

A orientação foi outro grande teste. Com trilhas apagadas ou encobertas e escassez de sinalizações oficiais, a navegação dependeu exclusivamente de três aplicativos com mapas offline carregados em seu celular, geridos com economia severa de bateria. Mesmo com a tecnologia, as oscilações de GPS provocaram desvios e erros de trajeto repetidas vezes.

Toda a jornada de sobrevivência e velocidade foi documentada em vídeo pela própria Fernanda, que operou sua câmera sem equipe de apoio. O projeto resultou no documentário Tala, disponível no YouTube, que retrata a intensidade do desafio na cadeia de montanhas onde a ultramaratonista viveu por doze anos. No programa, Fernanda também relembrou outros marcos de sua trajetória nas montanhas europeias, como o recorde no Gran Paradiso e a escalada do Matterhorn retratados no filme Two Mountains, One Day.

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