Como a Afesu estrutura o tripé de formação técnica e humana
Sonia de Almeida detalha a evolução de 63 anos da instituição e o método que une técnica, apoio socioemocional e família.
Em entrevista ao Marketing - The Podcast, Sonia de Almeida detalha a metodologia de ensino da Afesu. A organização alia capacitação profissional a acompanhamento socioemocional e integração com as famílias para apoiar meninas e jovens em São Paulo.
Sonia de Almeida, diretora-executiva da Afesu, explicou, em conversa com Bruno Gimenes no Marketing - The Podcast, como funciona a metodologia de ensino da instituição sem fins lucrativos criada há 63 anos. O episódio completo também aborda outros aspectos da trajetória de Almeida e os desafios de gestão no terceiro setor.
No vídeo acima, Almeida apresenta os detalhes do trabalho realizado com meninas e jovens em situação de vulnerabilidade em São Paulo. A organização começou suas atividades no Jardim Taboão, focada em gerar renda para mulheres por meio de artesanato e da confecção de tapetes de Arraiolos. Para garantir que as mães pudessem participar, o projeto oferecia suporte com dentistas, psicólogas e recreação para os filhos.
Com a evolução da iniciativa, a organização identificou que precisava intervir mais cedo na trajetória das alunas, passando a atender meninas a partir dos 8 anos de idade. Almeida afirma que a decisão levou em conta o impacto das mulheres na sustentação dos lares: "Existe aí estudos que sabem que 90% das mulheres são as que efetivamente trabalham e colocam todo o dinheiro dentro da família".
Da capacitação artesanal ao foco em tecnologia e cursos técnicos
A estrutura de atendimento foi distribuída em três unidades: Morro Velho, no Taboão, que recebe em torno de 200 alunas; Velheiros, na Vila Missionária, com em torno de 450 meninas; e uma unidade em Cotia, com em torno de 180 jovens. No total, a organização acolhe em torno de 900 meninas por ano em formatos modulares.
A grade pedagógica expandiu-se do apoio escolar básico para capacitações voltadas à inserção no mercado de trabalho. A instituição oferece suporte educacional para a faixa de 7 a 13 anos, além de formações técnicas em enfermagem e gastronomia e cursos focados no setor de tecnologia. Para o grupo de 16 a 20 anos, há um programa com duração de 1 ano que abrange noções de marketing, economia, estatística, postura profissional e elaboração de currículos.
Almeida pontua que o foco em tecnologia responde a uma carência de contratação: "Por que tecnologia? Porque emprega. Hoje em dia ainda é muito carente de mulheres na tecnologia no mercado".
O tripé formativo e o papel das preceptorias
A metodologia da Afesu apoia-se em três eixos: capacitação técnica, formação humana e engajamento familiar. O pilar socioemocional trabalha conceitos de ética, responsabilidade, convivência em grupo e resiliência diante de frustrações cotidianas, utilizando a prática esportiva como ferramenta complementar de aprendizado.
Segundo Almeida, a proposta transcende a grade de conteúdos: "O nosso propósito vai muito além da técnica. O que que a gente quer? A gente quer formar mulheres, seres humanos melhores".
Parte central da formação ocorre por meio das preceptorias — conversas individuais periódicas de 15 minutos com tutores no jardim da escola. Os encontros abordam o desempenho escolar, o convívio pessoal e as perspectivas de futuro das alunas. Para Almeida, a vulnerabilidade enfrentada pelas alunas não é apenas financeira, refletindo-se frequentemente na baixa autoestima e na falta de perspectivas no período pós-pandemia.
Envolvimento das famílias e permanência na escola formal
O terceiro pilar do método consiste no trabalho direto com os núcleos familiares. Como as alunas permanecem na instituição por duas horas e meia ao dia, Almeida destaca a necessidade de colaboração contínua com quem convive com as alunas, independentemente da composição do lar.
"Eu não faço transformação em duas horas e meia por dia em ninguém. Eu não consigo entrar. Eu preciso da ajuda familiar", afirma Almeida ao explicar os encontros bimestrais realizados com os responsáveis.
Essas reuniões abordam temas identificados nas preceptorias das alunas, como o impacto do uso de redes sociais e o avanço das apostas online entre jovens. Outro critério fundamental é a retenção escolar: a matrícula e a frequência regular na escola formal são requisitos obrigatórios para que as estudantes continuem integradas às atividades da instituição.