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Victoria de Sá e os segredos da ultradistância no ciclismo

Pioneira nas provas de autossuficiência detalha perrengues nos Andes, pódio geral no BikingMan e a mentalidade do ultra.

Victoria de Sá compartilha os bastidores das provas extremas de ciclismo de autossuficiência pelo mundo. A atleta analisa desde a logística e o peso de cada grama na bike até os desafios de segurança para mulheres no esporte.

Pedalar milhares de quilômetros de forma totalmente autossuficiente, sem carro de apoio, decidindo onde dormir, comer e passar no meio da noite. Para Victoria de Sá, referência feminina da modalidade no Brasil, a ultradistância no ciclismo não é sobre sofrimento desmedido, mas sobre uma liberdade rara: a de focar apenas em pedalar, se alimentar e descansar enquanto o relógio corre.

A trajetória de Victoria na bike começou longe dos grandes desafios épicos. Da infância em pequenas cidades à locomoção urbana em São Paulo e aos primeiros pedais mais longos feitos por acaso, o caminho natural foi se afastando da dinâmica tensa dos pelotões de velocidade e encontrando espaço nos brevês e nas provas de longa distância, onde a estratégia e a constância pesam mais do que a explosão pura.

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Das montanhas do Peru ao pódio geral no BikingMan

Entre as experiências mais marcantes de Victoria está o Inca Divide, no Peru. Foram 1.650 km com mais de 30.000 metros de altimetria acumulada, grande parte acima dos 3.000 metros de altitude na Cordilheira Branca. Enfrentando mal de altitude severo, nevascas na região mineradora de Antamina e descidas com rajadas de vento violentas, ela foi a única mulher a cruzar a linha de chegada naquela edição.

Em solo nacional, Victoria conquistou um expressivo terceiro lugar geral no BikingMan Brazil, disputado sob chuva constante na Serra da Mantiqueira. Em uma prova que causou inúmeras desistências por hipotermia, a ciclista manteve a regularidade e sustentou a potência necessária nos quilômetros finais para garantir o pódio entre homens e mulheres.

Victoria de Sá e os segredos da ultradistância no ciclismo

A matemática da autossuficiência e o Everesting

Nas provas sem suporte externo, cada detalhe logístico determina o sucesso da jornada. Victoria explica que a preparação envolve pesar rigorosamente equipamentos e roupas, mapear pontos de abastecimento e definir rotas que equilibrem altimetria e distância. A capacidade de administrar o sono e a higiene básica na estrada torna-se tão determinante quanto o preparo muscular.

Esse volume de horas sobre a bicicleta também foi colocado à prova nos desafios de Everesting. Victoria já completou o desafio quatro vezes — incluindo a Serra Velha de Campos do Jordão, uma versão virtual e o Pico do Jaraguá, onde realizou 29 subidas consecutivas ao longo de 16 horas e meia com ritmo cirúrgico.

Representatividade feminina, segurança e comunidade

Apesar do desempenho das mulheres em provas longas — onde o fator fisiológico se dilui diante da eficiência energética e da resiliência mental —, Victoria destaca a disparidade de segurança enfrentada por atletas femininas no Brasil. O medo constante de violência nas estradas exige cuidados redobrados e ilustra a importância de eventos exclusivamente dedicados às mulheres.

Fora das competições extremas, o foco se volta para a construção coletiva. Como cofundadora do Fuga CC em São Paulo, Victoria reforça o papel do ciclismo como ponto de encontro e pertencimento. Para quem deseja dar as primeiras pedaladas ou sonha com distâncias maiores, a recomendação é simples: desmistificar a grandiosidade, quebrar a jornada em pequenas metas e respeitar o tempo que cada evolução exige.

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