Victor Schildt une gestão olímpica e a busca pelo Ironman
CFO da Recoma detalha os bastidores da infraestrutura esportiva no Brasil e sua jornada de 9 provas de Ironman até o sub-10.
Em conversa descontraída, o executivo e triatleta Victor Schildt explicou como a Recoma se consolidou como referência em pisos esportivos de alto rendimento. Ele também compartilhou os bastidores de sua trajetória no endurance, da maratona no deserto à conquista do sub-10 no Ironman.
Conciliar a liderança financeira de uma gigante da construção e infraestrutura esportiva com a rotina de treinos pesados para provas de Ironman é um desafio para poucos. Victor Schildt, CFO da Recoma, vive essa dualidade no dia a dia. Comandando projetos que abastecem desde quadras públicas até os maiores palcos olímpicos do mundo, ele também acumula nove provas de Ironman na bagagem, participações nos Mundiais de St. George e Nice, e uma busca obstinada pela quebra da barreira das 10 horas.
Da madeira aos Jogos Olímpicos: a evolução da Recoma
Criada originalmente no setor de revestimentos comerciais de madeira, a Recoma deu seus primeiros passos no esporte ao identificar a necessidade dos atletas de basquete por pisos com sonoridade e amortecimento específicos. Com o tempo, a empresa expandiu sua atuação para materiais sintéticos, tatames e pistas emborrachadas. Em 2004, tornou-se construtora para atender demandas completas de arenas e centros de treinamento.
A virada de escala internacional aconteceu nos Jogos Pan-Americanos do Rio 2007 e se consolidou nos Jogos Olímpicos Rio 2016, quando a empresa forneceu mais de 35 mil metros quadrados de pisos esportivos. A atuação se repetiu em Lima 2019, por meio de contratação direta da UNOPS (braço operacional da ONU), e mais recentemente na Casa Brasil durante os Jogos de Paris 2024. A empresa também apoia grandes nomes do esporte nacional, mantendo atletas como Maurren Maggi e Arthur Zanetti entre seus embaixadores históricos.
Infraestrutura de ponta e democratização do esporte
Durante a conversa, Victor destacou a diferença entre o modelo de infraestrutura esportiva brasileiro e o de potências como Estados Unidos e China. No Brasil, o motor das medalhas e do alto rendimento reside nos clubes formadores, no Sistema S e nas Forças Armadas. Para Schildt, o maior ganho recente do país foi a modernização em escala de ginásios e centros públicos, levando pisos de padrão internacional para escolas e cidades do interior.
A qualidade técnica dessas instalações exige rigor. Para pistas de atletismo, as homologações da World Athletics demandam testes mecânicos precisos de absorção de impacto, drenagem e espessura do material emborrachado. O mesmo critério se aplica aos campos de grama sintética certificados pela FIFA, que passam por ensaios biomecânicos para assegurar a rolagem da bola e a segurança articular dos jogadores.
O começo extremo e a imersão no triatlo
A entrada de Victor no mundo da corrida teve raízes na infância e evoluiu de forma autodidata. Ele começou correndo maratonas sozinho pelas ruas de São Paulo, deixando garrafas de água na portaria do prédio para se hidratar a cada volta. O gosto pela distância o levou a desafios extremos, como a ultramaratona de Bertioga-Maresias (75 km solo) e a corrida de 50 km no festival Burning Man, sob calor de 50 graus e tempestades de areia.
A transição para o triatlo ocorreu com a assessoria Mevi Lelo, após o alerta de familiares sobre os riscos das ultramaratonas sem suporte. Victor mergulhou de cabeça na modalidade: em seu primeiro ano no esporte, completou seis provas de Ironman — três na distância 70.3 e três fulls, incluindo duas provas completas (Flórida e Cozumel) no mesmo mês, inspirado por um casal veterano com mais de 50 anos e dezenas de provas no currículo.
A caçada ao sub-10 e a superação em Maryland
A busca pelo tempo abaixo de 10 horas em uma prova de Ironman full transformou-se em uma verdadeira saga. No Ironman Western Australia, após anos de adiamentos pela pandemia, Victor marcou 10h06min após sofrer uma penalização no vácuo da bicicleta. Em provas seguintes, no Ironman Itália e no Ironman Texas, as marcas de 10h05min e 10h14min bateram na trave sob condições climáticas adversas de vento extremo.
A redenção aconteceu no Ironman Maryland. Apesar de um dia caótico — marcado por águas-vivas na natação, um problema mecânico na bike que custou 18 minutos na transição e trechos alagados pela maré na corrida —, Victor manteve o ritmo mentalmente e cruzou a linha de chegada em 9h58min59s. O resultado garantiu o terceiro lugar na categoria e a vaga para o Mundial de Nice, onde correu sem relógio após perder o dispositivo na natação, fechando com sua melhor maratona no formato.
Futuro no Ironman Wales e o foco no Kona Legacy
Atualmente treinado por Wagner Spadotto (Espadinha), Victor mira seu próximo grande desafio no Ironman País de Gales, famoso pela altimetria severa e águas geladas. O objetivo de longo prazo é conquistar a vaga para o Mundial de Kona através do programa Legacy, que exige a conclusão de pelo menos 12 provas full ao longo de dez anos.
Ao refletir sobre a jornada executiva e esportiva, Victor reforçou a importância do equilíbrio: saber dosar a ambição por marcas com a sustentabilidade das relações familiares e do trabalho. Para ele, o endurance ensina que o combustível decisivo nos momentos em que o corpo esgota é a clareza mental e a convicção nos compromissos assumidos consigo mesmo.