Treinar muito significa viver mais? Entenda a longevidade
A cardiologista e triatleta Gabriela Prado explica o impacto dos excessos, a importância do sono e a medicina preventiva.
Treinar dezenas de horas por semana não garante uma vida longa e saudável se outros pilares forem negligenciados. Em conversa com a cardiologista Gabriela Prado, o Girls Who Run debate a fronteira entre esporte de endurance, sono e longevidade real.
No universo das corridas e do triathlon, existe uma premissa quase automática de que quem treina muito e ostenta um condicionamento invejável é, por definição, o retrato da saúde. No entanto, a busca desenfreada por performance muitas vezes esconde um acúmulo perigoso de estresse físico e mental. No podcast Girls Who Run, apresentado por Mariana Real e Marcela Fanti, a médica cardiologista e triatleta Dra. Gabriela Prado abordou a real relação entre exercício físico, excessos e longevidade.
Longevidade não é apenas contagem de anos
A medicina moderna permitiu um avanço sem precedentes na expectativa média de vida, mas viver até os 80 ou 90 anos não significa necessariamente viver com autonomia. De acordo com a Dra. Gabriela Prado, a longevidade de verdade está ligada à capacidade de manter independência funcional e lucidez nas últimas décadas de vida, evitando passar os anos finais restrito a internações hospitalares ou dependência de terceiros.
Essa qualidade de vida nos anos derradeiros depende diretamente das decisões tomadas ainda jovem, entre os 20 e 40 anos. Escolhas relacionadas à alimentação, qualidade do descanso, gerenciamento do estresse urbano e prática regular de movimento físico funcionam como investimentos com juros compostos que serão colhidos no futuro.
O perigo de confundir performance com saúde
Na rotina de muitos atletas amadores que buscam provas de longa distância, é comum tentar reproduzir a rotina de um atleta profissional enquanto se mantém uma jornada exaustiva de trabalho CLT. Essa combinação, somada a noites mal dormidas e trânsito caótico, gera uma sobrecarga de cortisol e estresse que impede a regeneração orgânica. A evolução atlética, como lembra Gabriela, não ocorre durante a pancada do treino, mas sim durante a recuperação basal.
Além disso, a busca por atalhos hormonais e o uso indiscriminado de canetas emagrecedoras para atingir composição corporal extrema colocam a saúde cardiovascular em risco. Há também alterações fisiológicas como o chamado 'coração de atleta' (dilatação benigna das cavidades cardíacas) que, levadas ao limite em indivíduos com condições predisponentes não diagnosticadas, podem culminar em desfechos graves. A médica reforça que não existe performance sem segurança e que o check-up preventivo precisa vir antes de qualquer meta de prova.
A arquitetura do sono e os limites da tecnologia
Entre todos os hábitos negligenciados na rotina contemporânea, o sono é o mais crítico. O descanso noturno divide-se em fases essenciais: o sono profundo atua diretamente no relaxamento e na reconstrução muscular, enquanto o sono REM desempenha papel crucial na limpeza de toxinas cerebrais e na consolidação cognitiva. A privação crônica está diretamente associada ao risco aumentado de declínio cognitivo e doenças neurodegenerativas a longo prazo.
Outro ponto destacado por Gabriela diz respeito aos três pilares do sono: duração (que varia individualmente), arquitetura das fases e regularidade de horários. A ideia de que é possível compensar noites mal dormidas na semana dormindo horas a fio no sábado e domingo é um equívoco biológico, pois desregula a liberação do hormônio melatonina. Além disso, gadgets vestíveis (como relógios e anéis inteligentes) são eficientes para estimar o tempo total dormido, mas não possuem acurácia clínica para definir os estágios do sono quando comparados ao padrão-ouro da polissonografia.
O salto da inércia para o movimento
Embora o excesso extremo de treino traga riscos pontuais, a maior parte da população ainda sofre com as consequências diretas do sedentarismo. Estudos mostram que o maior ganho percentual em saúde e redução de mortalidade ocorre quando um indivíduo sai da inatividade para doses modestas de atividade semanal — um salto proporcionalmente mais expressivo para o organismo do que a transição de um meio ironman para um ironman completo.
Para romper a barreira inicial, Gabriela e as apresentadoras ressaltam a importância de desmistificar a ideia de que exercício se resume a musculação ou corrida. Encontrar uma prática prazerosa — seja dança, futevôlei ou esportes coletivos — estimula a aderência imediata, criando um ciclo virtuoso no qual o indivíduo passa a cuidar melhor de outros aspectos da saúde.
Medicina preventiva e as fases da saúde feminina
Historicamente reativa, a medicina foca em conter danos quando a doença já está instalada. Para mudar esse panorama, plataformas de gestão individualizada de saúde, como a Centene (co-fundada pela Dra. Gabriela), buscam cruzar dados laboratoriais, histórico familiar e objetivos de cada paciente para agir antes das manifestações sintomáticas.
No caso específico das mulheres, o rastreio preventivo deve respeitar as quatro fases biológicas: infância/adolescência, fase reprodutiva (onde condições inflamatórias como endometriose e síndrome dos ovários policísticos elevam o risco cardiovascular futuro), gestação e menopausa. Na idade reprodutiva, testes como o hormônio antimülleriano auxiliam no planejamento reprodutivo e na preservação da fertilidade. Já na transição para a menopausa, a queda estrogênica exige monitoramento atento da composição corporal, saúde óssea e marcadores vasculares.