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Sertões: a operação e expansão do rali com Leonora Guedes

À frente do rali, mountain bike e kitesurf, executiva detalha logística de guerra, impacto social e modelo de negócio.

Em conversa no Stemma Podcast, a CEO do Sertões, Leonora Guedes, detalha a engrenagem por trás do maior rali das Américas. A executiva explica a expansão para mountain bike e kitesurf, a operação de segurança aérea e o impacto social das caravanas pelo Brasil profundo.

Com mais de três décadas de história, o Sertões consolidou-se como o maior rali das Américas e uma das mais complexas operações esportivas itinerantes do mundo. Hoje, porém, a marca vai além dos motores a combustão: abriga provas consolidadas de mountain bike e kitesurf e se posiciona como uma plataforma de conteúdo, turismo e transformação social. Em entrevista ao Stemma Podcast, a CEO e sócia da empresa, Leonora Guedes, explicou como funciona a engrenagem que desloca mais de 2.500 pessoas pelo interior do país a cada edição.

Formada no turismo e com passagem pela Secretaria de Turismo de Goiás, Leonora ingressou no universo do rali quando Goiânia se tornou a largada tradicional da prova. Ao lado de nomes como Marcos Ermírio de Moraes no passado e, mais recentemente, de Júlio Capua e dos demais sócios, ela assumiu a liderança executiva do negócio, sendo a única mulher no board executivo da organização.

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Da origem à logística de uma operação de guerra

Criado em 1993 por Dionízio Malheiros como uma aventura de moto entre Campos do Jordão e o Nordeste, o evento evoluiu sob a inspiração do Dakar. Atualmente com oito etapas disputadas contra o relógio, o grid reúne quatro categorias: motos, quadriciclos, carros e UTVs — esta última com forte crescimento e quase uma centena de veículos alinhados. Os caminhões deixaram de correr devido ao impacto ambiental e ao perfil estreito das trilhas brasileiras.

A rotina de prova exige um rigor logístico comparável ao de missões militares. Como a prova só ocorre sob a luz do sol para permitir o voo dos dois helicópteros médicos de resgate — posicionados a no máximo dez minutos de qualquer ponto do percurso —, a janela de largada precisa funcionar com precisão cirúrgica. As equipes técnicas espalham cerca de 60 caminhonetes com paramédicos ao longo das especiais, enquanto antenas Starlink e aviões repetidores garantem comunicação constante em regiões completamente isoladas.

Sertões: a operação e expansão do rali com Leonora Guedes

Poeira com propósito: saúde e legado ambiental

Atravessar cidades de pequeno porte, como Mateiros (TO) e Xique-Xique (BA), trouxe para a organização a responsabilidade de deixar um legado real. Sob o lema de "poeira com propósito", o Sertões atua em parceria com o projeto SAS Brasil (Saúde e Alegria no Sertões), deslocando carretas médicas e especialistas voluntários para zerar filas de atendimento do SUS nos municípios anfitriões.

Entre as frentes de ação social estão a triagem e doação de óculos para crianças em escolas públicas e a distribuição de filtros para comunidades sem saneamento básico. No âmbito sustentável, a organização neutraliza as emissões de carbono geradas pelos motores, realiza o rerrefino do óleo utilizado e faz a gestão de resíduos em parceria com cooperativas locais ao longo de todo o roteiro.

Acesso ao Brasil profundo com as expedições de turismo

Com 80% a 85% das estradas brasileiras ainda não pavimentadas, o Sertões transformou o próprio percurso em produto turístico. Homologadas pela organização, doze operadoras conduzem expedições que acompanham a caravana em veículos 4x4 ou motos, permitindo que famílias e entusiastas de diferentes idades vivenciem parques nacionais, cânions e grutas sem a pressão do cronômetro.

"A expedição é a nossa arquibancada. Quem participa tem acesso a lugares remotos com toda a retaguarda de segurança do rali, escolhendo se quer uma experiência mais rústica com acampamento ou hospedagem nas melhores pousadas da região", destacou Leonora.

Expansão para o mountain bike e o kitesurf

Durante a pandemia, o Sertões buscou diversificar sua atuação explorando modalidades conectadas ao ar livre e ao espírito de aventura. A divisão de ciclismo resultou no Sertões MTB, disputado em formato de estágios de três dias em cenários técnicos como Ibitipoca e Nova Lima, em Minas Gerais. A prova destacou-se no cenário internacional ao realizar grandes grids de e-mountain bike (bicicletas elétricas assistidas), atraindo competidores amadores qualificados.

No mar, a marca criou o único rali de kitesurf em linha do planeta: o Sertões Kitesurf. O evento percorre cerca de 400 km de downwind pelo litoral do Ceará e estados vizinhos ao longo de quatro etapas. A estrutura marítima conta com jet-skis de apoio, velejadores salva-vidas e suporte terrestre 4x4, abrindo espaço tanto para atletas profissionais — como o velejador olímpico Bruno Lobo — quanto para velejadores amadores na categoria adventure.

Gestão de imprevistos e foco em conteúdo

Administrar provas em múltiplos estados exige jogo de cintura imediato. Leonora relembrou um episódio crítico de 2021, quando o lote de planilhas de navegação (os roadbooks) de uma etapa na Paraíba foi extraviado antes da largada. Em pleno domingo, a equipe mobilizou uma gráfica universitária local para imprimir centenas de páginas coloridas, atrasou a largada em apenas uma hora e salvou o dia de competição.

Para a executiva, a consolidação das três verticais — rali, mountain bike e kitesurf — reforça a identidade do Sertões não apenas como produtora de eventos, mas como geradora de conteúdo esportivo que promove a hospitalidade, as paisagens e as histórias humanas do Brasil.

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