Psicologia do esporte: desvendando a mente do atleta
Kátia Rubio, referência na área, discute os desafios emocionais de atletas profissionais e amadores, e a busca por um esporte saudável.
A psicóloga Kátia Rubio, professora e pesquisadora da USP, aborda a psicologia do esporte, desde a gestão da ansiedade e da derrota em atletas de alto rendimento até os riscos da auto-cobrança excessiva no esporte amador. Ela destaca a importância do autoconhecimento e do prazer na prática esportiva. A conversa reforça que o esporte deve ser uma ferramenta de conexão, não de sofrimento.
A mente por trás da performance esportiva é um terreno vasto e complexo, muitas vezes ignorado em meio a treinos, planilhas e resultados. Para desvendar esse universo, o podcast Girls Who Run, do Stemma Sports, recebeu Kátia Rubio, uma das maiores referências brasileiras em psicologia do esporte, professora e pesquisadora da USP, para um bate-papo revelador sobre tudo aquilo que acontece na cabeça de quem corre, tanto no alto rendimento quanto no esporte amador.
Kátia Rubio, que fará 64 anos no dia da estreia do Brasil na Copa do Mundo – uma curiosa coincidência com seu ano de nascimento –, compartilha sua trajetória singular. Formada inicialmente em jornalismo, ela sempre praticou esportes, definindo-se como uma "menina maluquinha" que encontrava no esporte uma forma de estar no mundo. Voleibolista por muitos anos, ela atribui ao esporte lições valiosas como respeito a regras, trabalho em equipe e liderança. Uma reviravolta financeira no Plano Collor a levou de volta aos estudos, desta vez na psicologia, e foi durante a faculdade, inspirada pelos Jogos Olímpicos de Barcelona, que o termo "psicologia do esporte" surgiu em seu radar. Ao perceber a lacuna bibliográfica na área, ela se aprofundou e se tornou uma pioneira, estruturando o primeiro grupo de trabalho e curso de especialização reconhecido no Brasil, além de ser presidente fundadora da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte. Sua história demonstra como uma crise pode se transformar em uma oportunidade de recomeço e descoberta de um novo propósito.
A Evolução da Psicologia do Esporte no Brasil
Engana-se quem pensa que a psicologia do esporte é uma novidade no Brasil. Kátia revela que ela é anterior à formalização da profissão de psicólogo em 1962. O psicólogo João Carvalho, por exemplo, acompanhou a seleção brasileira de futebol de 1958, que foi campeã mundial, conferindo grande visibilidade ao trabalho. No entanto, a área ganhou força nas décadas de 1980 e 1990, impulsionada pela profissionalização do esporte e pela percepção de que a psicologia era uma necessidade para lidar com as complexidades da competição, desmistificando a ideia de que seria "coisa para loucos".
Hoje, a psicologia do esporte atua em diversos contextos, seja com atletas de altíssimo rendimento ou amadores. O objetivo, segundo Kátia, é sempre muito claro: entender o que a pessoa busca. Com profissionais, a meta pode ser alcançar novos patamares de performance; com amadores, pode ser completar uma maratona festiva como a de Médoc. A chave é o planejamento realista, que envolve estabelecer metas de curto, médio e longo prazo, entendendo que a motivação se alimenta de conquistas imediatas. É um trabalho de equacionar o desejo com a realidade, muitas vezes atuando como um "tradutor" dentro de uma equipe multidisciplinar que inclui técnicos, nutricionistas e outros especialistas. O tato e a escuta são essenciais, pois cada indivíduo é único e precisa ser tratado com humanidade, não como uma máquina.
Mitos e Desafios da Profissão
Um dos grandes mitos em torno da psicologia é que ela seria apenas para "loucos" ou "desequilibrados". A pandemia de COVID-19, no entanto, mudou essa percepção, posicionando a psicologia como uma ponte para o bem-estar. No esporte, havia a resistência de técnicos que temiam perder poder, vendo o psicólogo como um rival. Kátia, com sua experiência, enfatiza que o psicólogo do esporte é um facilitador, um mediador entre as partes, que oferece "outros óculos" para enxergar o atleta. Ela destaca que o profissional da psicologia deve entender não só da sua área, mas também ter noções de fisiologia, nutrição e o esporte em si, para humanizar a prática esportiva e não reduzir o atleta a uma máquina.
A especialista refuta a ideia de que técnicos ou outros profissionais possam substituir o papel do psicólogo. Ela relata um episódio em um congresso onde um técnico orgulhosamente afirmou ser o psicólogo de seus atletas. Kátia interveio, salientando que, embora ele pudesse entender muito de fisiologia ou nutrição, ele não era fisiologista nem nutricionista, e muito menos psicólogo. Essa distinção é crucial, pois o psicólogo opera sob um rigoroso código de ética, que preza pelo anonimato e pela privacidade do atleta. O trabalho do psicólogo, quando bem feito, atua nos bastidores, e o reconhecimento vem do resultado e do próprio atleta, e não da busca por holofotes.
Sofrimento Mental e a Transição de Carreira
As maiores demandas de sofrimento mental no esporte de alto rendimento incluem a ansiedade pré-competitiva e a dificuldade em lidar com a derrota. Kátia menciona o caso de Joaquim Cruz, medalhista olímpico, que descrevia a ansiedade como um "dragão" que o perseguia, chegando a desenvolver uma úlcera gástrica. A ansiedade, em uma medida ótima, é necessária para a performance, mas o excesso pode ser devastador. Quanto à derrota, ela é vista como a "sombra da sociedade contemporânea" no esporte. Embora Pierre de Coubertin tenha dito que o importante é competir, Kátia lembra que todo atleta entra para ganhar. É um desafio educar para o esporte e valorizar a prata e o bronze como grandes vitórias, não como "derrotas".
A psicóloga também diferencia o trabalho com grupos e indivíduos. Em equipes, o foco é a formação de vínculo e comunicação, pois "uma equipe desvinculada não joga". Ela cita o exemplo dos "galácticos" do Real Madrid, que, apesar de reunirem grandes talentos, não conquistaram títulos por falta de conexão. Já para os indivíduos, o acompanhamento é mais personalizado, considerando as particularidades de cada atleta e modalidade. A carreira de atleta, ressalta Kátia, é muito breve, e o atleta "morre duas vezes" ao se aposentar de sua identidade esportiva. Por isso, a transição de carreira é um foco importante de seu trabalho, ajudando atletas a reconhecerem suas habilidades e a se reinventarem para uma nova vida profissional, que não precisa necessariamente estar ligada ao esporte.
Desafios Específicos para Mulheres e o Esporte Amador
Ainda hoje, a discriminação no esporte persiste para as mulheres, embora de forma mais "camuflada". O esporte, historicamente um território masculino, vê as mulheres como "invasoras". Kátia enfatiza que, apesar dos avanços, ainda não há igualdade nem equidade, especialmente nos níveis de governança e liderança. "Enquanto não se mexer na estrutura, não adianta dizer que tem igualdade", afirma. Ela também aborda a cobrança estética e a banalização do conhecimento nas redes sociais, que podem levar atletas amadores a posturas arriscadas.
Kátia expressa preocupação com a mentalidade de alto rendimento no esporte amador. Muitos corredores acordam às 4h da manhã para uma prova, mas esquecem o prazer da corrida, focando apenas no tempo. "É preciso acionar o botãozinho da lembrança do prazer", diz ela. A pressão externa, as comparações e a busca incessante por "mais e mais" levam a frustrações desnecessárias. Kátia critica a "burrice" de quem se machuca ou negligencia a saúde em nome de uma meta irreal, justificando como "ser forte". Ela sugere que muitas dessas frustrações são deslocamentos de problemas de outras áreas da vida que precisam ser resolvidos com terapia.
Esporte: Remédio ou Prazer?
A ideia de que "esporte é remédio" é patologizante, segundo Kátia. Para ela, o esporte é, antes de tudo, uma conexão mente-corpo, um momento de transcendência e presença. Ele humaniza, desde que seja praticado com amor e bom senso. O esporte em si não é bom nem ruim; ele é o que o atleta faz dele. Ele pode ser terapêutico, uma válvula de escape para o estresse do cotidiano, mas não é terapia, que exige um setting e um profissional capacitado.
Por fim, Kátia aborda o "vazio pós-competição" ou "depressão pós-conquista". Ela usa a metáfora da montanha: a escalada é árdua, a chegada ao pico é gloriosa, mas a descida também tem seus desafios. Esse vazio é, muitas vezes, um relaxamento natural após um período de intensa dedicação. "Relaxar é proibido" na sociedade moderna, que confunde tristeza com depressão. É fundamental aprender a "degustar" a vitória, a celebrar o processo e a buscar o prazer, não apenas a meta. A pergunta que todo corredor deveria se fazer é: "Por que eu estou fazendo isso?" A resposta deve ser o prazer, a alegria, a saúde – e não a auto-cobrança ou a aprovação externa.
Para Kátia, o esporte deve ser feito com moderação e, se a relação não está saudável, é preciso revisitar as prioridades e, se necessário, buscar ajuda profissional. Seu conselho para quem fica triste depois de uma grande prova é simples: "Logo vem outra". A busca pelo prazer e a alegria na prática são a verdadeira saúde mental no esporte.