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Percival Milani e os grandes desafios das águas abertas

Da Travessia 14 Bis ao Canal da Mancha e aos 170 km no Velho Chico, o nadador detalha bastidores da ultramaratona.

Percival Milani relembra sua trajetória na natação de águas abertas, desde a transição da carreira executiva até a travessia do Canal da Mancha. O ultramaratonista também revela bastidores de desafios extremos no Rio São Francisco e na Volta do Dragão.

Retomar o esporte de alto rendimento após duas décadas longe das piscinas parece improvável para muitos, mas foi exatamente essa virada de chave que moldou a história de Percival Milani. Ex-executivo, Percival voltou a nadar aos 39 anos para combater o estresse da rotina corporativa e, em pouco tempo, migrou das provas de velocidade da juventude para as maratonas aquáticas de longa distância, tornando-se uma das maiores referências e organizadores da modalidade no Brasil.

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Do recomeço amador ao Canal da Mancha

A primeira grande prova veio em 2001, na clássica Travessia 14 Bis. Com um treinamento modesto de 2 km diários três vezes por semana, Percival completou o percurso no sofrimento, mas a experiência abriu caminho para um objetivo muito mais ambicioso: encarar os desafios do Canal da Mancha em 2003, aos 41 anos.

A preparação exigiu uma reestruturação completa de rotina. Sob a orientação técnica de Agnaldo Orso F. e acompanhamento nutricional do Dr. Oscar Naranjo, Percival passou a conciliar treinos de força às cinco da manhã na Companhia Atlética com jornadas de trabalho na Vila Olímpia, acumulando cerca de 6 km diários de água. Faltando um mês para a viagem a Dover, uma demissão em massa na empresa onde era diretor quase interrompeu o plano, mas o projeto seguiu firme. Na travessia oficial, encarou água entre 17°C e 18°C e cerca de seis horas de enjoo e vômitos até cravar a chegada em território francês.

Percival Milani e os grandes desafios das águas abertas

170 km no Rio São Francisco e a força das correntes

Em 2011, ao lado do nadador Edmundo Foschini e de outros atletas, Percival encarou uma expedição pioneira de 170 km pelo Rio São Francisco, dividida em quatro dias de natação contínua sem revezamento. O trajeto, que partiu da histórica cidade de Piranhas, exigiu superação logística extrema, apoio do Corpo de Bombeiros e coordenação com pequenas prefeituras ribeirinhas ao longo do cânion de Xingó.

O segundo dia da expedição foi o mais desgastante: foram 59 km percorridos em 12 horas consecutivas dentro da água, enfrentando ventos contrários que erguiam ondas fluviais de até 70 cm até a chegada em Traipu. Percival destacou a importância de compreender a hidrodinâmica e a vazão da usina hidrelétrica para escapar dos temidos redemoinhos da região, conhecimento técnico que alimenta seu plano de desbravar o trecho final de 45 km entre Penedo e a foz do Velho Chico.

A Volta do Dragão e o legado na Travessia 14 Bis

Outra façanha marcante ocorreu em 2015 com a Volta do Dragão, desafio em revezamento de 72 km contornando a Ilha de Santo Amaro, em Guarujá. A equipe largou da Base Aérea de Santos sob um vendaval histórico que destelhou instalações locais. Ao longo de 18 horas de revezamento no mar aberto, o time precisou acelerar o ritmo e adotar tiros curtos de 15 minutos para vencer correntes contrárias severas antes de fechar a volta completa.

Com 12 participações como atleta na 14 Bis — incluindo uma travessia completada apenas na batida de perna — e mais de duas décadas dedicadas à liderança e organização do evento pela Associação 14 Bis, Percival agora organiza um acervo histórico com todos os resultados da prova de 2000 a 2025. Ao passar gradualmente o bastão da organização para nomes como Wanderley Santos, ele consolida uma trajetória pautada pela resiliência, pelo pioneirismo técnico e pelo fortalecimento da comunidade das águas abertas.

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