Pedro Morganti e a ciência da ultradistância no RAAM
Com mais de 30 Ironmans no currículo, o atleta de 63 anos detalha treinos, erros e a estratégia para cruzar os EUA no pedal.
Aos 63 anos e com mais de três décadas dedicadas ao endurance, Pedro Morganti se prepara para sua terceira tentativa solo no Race Across America. O atleta compartilha como dosar o esforço, gerenciar a dor e estruturar blocos diários de 400 km.
Aos 63 anos e com uma bagagem que inclui mais de 30 provas de Ironman, cinco edições de Ultraman e provas épicas de mountain bike como Cape Epic e Brasil Ride, Pedro Morganti — o Pedrão — personifica a longevidade no esporte de resistência. Em conversa no Na Roda do Stemma com Gisele Gasparotto, o atleta detalhou a mentalidade e o rigor físico necessários para encarar o maior teste do ciclismo mundial: o Race Across America (RAAM) solo.
Para Pedrão, a ultradistância é uma disciplina à parte, caracterizada por jornadas que superam os 300 km na bicicleta ou 10 km na natação. No RAAM, a exigência beira o inacreditável: são cerca de 4.900 km de costa a costa nos Estados Unidos, exigindo uma média de 400 km por dia durante 12 a 13 dias consecutivos, cruzando desertos escaldantes e montanhas imponentes.
As lições das primeiras tentativas no RAAM
A experiência no RAAM solo ensina pelas vias mais duras. Em sua primeira participação, Morganti percorreu 3.200 km antes de abandonar a prova por uma inflamação aguda no tendão de Aquiles — consequência de pedalar mais de 500 km ininterruptos na bicicleta de contrarrelógio, cuja geometria agressiva não foi feita para suportar dias seguidos de esforço contínuo.
Na segunda tentativa, o erro esteve no ritmo da largada. Ao imprimir uma intensidade excessiva nos primeiros 130 km sob forte calor antes da descida para o deserto, Pedro desidratou sem perceber. As cãibras severas e episódios de vômito exigiram oito horas de internação hospitalar e quatro litros de soro na veia. Mesmo retornando à estrada e acumulando cerca de 2.800 km, o tempo limite e o desgaste acumulado da equipe de apoio minaram a continuidade no percurso.
A estratégia para a terceira jornada solo
Para a nova tentativa de cruzar os Estados Unidos, Pedro reestruturou completamente a abordagem. A preparação envolve treinos em blocos sucessivos de 400 km e uma regra de ouro de intensidade: nunca ultrapassar 70% a 75% da capacidade máxima. Na ultradistância, queimar as pernas em um trecho curto compromete os dias seguintes.
A logística de suporte, coordenada por especialistas como Nelson Barreta, também foi refinada. As paradas precisam ser cirúrgicas, durando entre 15 e 20 minutos durante o dia, com cerca de 4 a 5 horas de descanso à noite. Uma das táticas envolve iniciar a ingestão de refeições quentes e sólidas ainda sobre a bicicleta, cerca de meia hora antes do ponto de parada, poupando tempo precioso de transição para massagem e repouso.
Rotina semanal e combate à dor
A rotina atual de treinos de Pedrão soma entre 500 e 600 km semanais de ciclismo. Os dias de semana são divididos entre ciclovias urbanas e a Cidade Universitária em São Paulo, reservando a sexta, o sábado e o domingo para os volumes mais pesados — incluindo treinos que superam 180 a 200 km com subidas exigentes, como a Serra de Mogi.
Quando o assunto é a dor extrema inerente à modalidade, a postura de Pedro é direta: a dor do esforço precisa ser combatida com hidratação, reposição de aminoácidos, alimentação correta, redução pontual de ritmo e fortalecimento mental. O atleta reforça que a ultradistância não é sobre sofrimento desmedido, mas sobre consistência diária e a decisão consciente de manter a paixão pelo esporte como estilo de vida.