Mizuno aposta em espumas modernas e produção nacional
Rogério Barenco detalha a estratégia da marca centenária para democratizar tecnologia de ponta e crescer no Brasil.
Em conversa aprofundada, o gerente geral da Mizuno no Brasil explica a evolução dos super trainers e o avanço da produção local via Vulcabras. Ele analisa ainda o fenômeno cultural do Wave Prophecy e o impacto das running crews na cena esportiva.
A indústria global de calçados esportivos viveu nos últimos anos uma corrida desenfreada pela placa de carbono. No entanto, para quem acompanha a engenharia e os bastidores das marcas, a verdadeira revolução do desempenho recente reside nas espumas de entressola. No Brasil, a Mizuno vem combinando o rigor técnico japonês com a capacidade fabril e de desenvolvimento da Vulcabras para levar tecnologias antes restritas ao topo da pirâmide para faixas de preço mais acessíveis.
À frente da operação nacional da marca, Rogério Barenco detalha que o mercado amadureceu e compreendeu que o corredor não necessita de placa rígida em todas as sessões de treino. O protagonismo migrou para os daily trainers premium e super trainers, calçados que equilibram amortecimento, responsividade e leveza com compostos avançados, como a família de espumas Enerzy.
Da fábrica no Brasil aos modelos de alta performance
A operação da Mizuno sob gestão da Vulcabras completou cinco anos consolidando um modelo híbrido: enquanto os lançamentos de altíssima performance permanecem importados da Ásia — a exemplo do levíssimo Hyper Warp, de apenas 137 gramas —, uma fatia expressiva da linha é desenvolvida e fabricada no Brasil. O país abriga o maior centro de desenvolvimento da América Latina e mantém canal direto com a matriz em Osaka.
Após introduzir a tecnologia Response Foam como solução inicial no mercado local, a parceria deu um salto técnico ao formular e produzir a espuma Enerzy em solo brasileiro. Essa capacidade permitiu criar extensões diretas das linhas globais em patamares de preço competitivos. O lançamento de modelos da família Neo — como Neo Aura, Neo Aura Knit, Neo Vortex e Neo Prisma — e da linha Sky Wave coloca espumas supercríticas e tecnologias avançadas na faixa de R$ 799, democratizando o acesso a materiais que antes só figuravam em tênis acima de mil reais.
O fenômeno cultural do Wave Prophecy
Nascida em 1906 no Japão e historicamente atrelada ao beisebol em sua origem, a Mizuno construiu no Brasil uma relação ímpar com diferentes públicos. Um dos casos mais emblemáticos é a linha Wave Prophecy. Lançado em 2011 como o ápice da tecnologia mecânica para corrida de rua, o modelo foi rapidamente ressignificado pela cultura urbana e pela periferia brasileira como um símbolo de estilo, desejo e status.
Barenco pontua que a marca compreendeu e abraçou essa transição de posicionamento: o Prophecy hoje integra formalmente a categoria sports style, com o Brasil liderando o consumo global e inspirando lançamentos em boutiques no Japão e semanas de moda internacionais, como a Paris Fashion Week com o Prophecy 13.2. A migração espontânea da estética esportiva para o uso casual reforça a força do segmento running inspired, que une o conforto das entressolas de corrida à moda cotidiana.
Conexão com as pistas e as running crews
Para atender aos mais de 15 milhões de corredores estimados no país, a Mizuno tem apostado em iniciativas de serviço direto à comunidade. Um dos principais pilares é a Mizuno Running Station, ponto de apoio instalado aos sábados na Cidade Universitária (USP), em São Paulo. O espaço oferece hidratação, teste de calçados antes da compra e suporte estrutural.
O local tornou-se o principal ponto de encontro das running crews, coletivos autônomos que agregam uma geração mais jovem e diversificada de corredores. Paralelamente, a marca sustenta parcerias técnicas com assessorias esportivas de renome nacional no triatlo e na corrida, conectando o desenvolvimento de produto aos atletas que vivem a rotina do alto rendimento.
Engenharia e rotina esportiva na gestão
Formado em Engenharia de Computação pela Unicamp, Barenco construiu mais de duas décadas de carreira na indústria esportiva, com passagens por grandes multinacionais antes de assumir a liderança da Mizuno. Corredor frequente e praticante de triatlo — com foco na distância short —, ele defende que a vivência prática do esporte é um ativo essencial para a tomada de decisões executivas, desde a escolha de um tecido ou cadarço até a gestão de crises econômicas e de abastecimento.