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Marta Izo e a coragem nas ultramaratonas aquáticas

Quinta brasileira a cruzar o Canal da Mancha detalha a rotina de treinos, o preparo mental e as travessias extremas.

Em conversa com o podcast Girls Who Run, a nadadora e treinadora Marta Izo relembra sua trajetória nas maratonas aquáticas. Entre travessias no Canal da Mancha e no Rio Hudson, ela compartilha os bastidores da superação física e mental em provas de longa duração.

No universo dos esportes de endurance, cruzar a linha de chegada exige lidar com o desconforto, a solidão e a incerteza. Para quem encara maratonas aquáticas e travessias oceânicas, o desafio ganha contornos ainda mais complexos: são horas a fio em mar aberto, sem apoio visual de trajeto e dependendo exclusivamente do ritmo das braçadas e da estabilidade psicológica. Quinta mulher brasileira a completar a travessia solo do Canal da Mancha, a nadadora e técnica Marta Izo compartilhou no podcast Girls Who Run as lições acumuladas ao longo de décadas nas águas abertas.

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Da pausa de 17 anos ao sonho do Canal da Mancha

A relação de Marta com a natação começou aos 6 anos de idade, por incentivo médico para acompanhar o tratamento de bronquite da irmã. Após competir como atleta federada até os 17 anos por clubes tradicionais como Espéria e Pinheiros, ela decidiu parar para se dedicar aos estudos de Educação Física. O afastamento durou 17 anos, período em que chegou a jogar beisebol por sete temporadas e passou a dar aulas de natação, sem treinar com foco competitivo próprio.

O desejo de encarar o Canal da Mancha, adormecido desde a adolescência, ressurgiu aos 33 anos durante um curso de formação em Watsu. Determinada a transformar o plano em meta concreta, Marta retomou os treinamentos em 2004, aos 34 anos. A preparação exigiu superar um obstáculo pessoal recorrente entre atletas de piscina: o medo do mar aberto. Aliando mentalização, técnicas de respiração e constância nos treinos de represa e mar, ela construiu a base necessária para o desafio.

Marta Izo e a coragem nas ultramaratonas aquáticas

O desafio solo e a barreira das quatro horas

Para viabilizar a travessia solo em 2006, Marta enfrentou uma rotina intensa com semanas de treinamento que chegaram a 100 km nadados e volumes de final de semana entre 15 km e 20 km contínuos. A logística no Canal da Mancha envolve janelas de espera climática e regras rígidas de acompanhamento por barco oficial.

Na água, a estratégia de nutrição foi exclusivamente líquida, fracionada a cada 30 minutos nas primeiras quatro horas e reduzida gradativamente para intervalos de 15 minutos até a conclusão. Segundo a atleta, o período em torno de 3 horas e meia a 4 horas representa o ponto crítico de dor e adaptação mental nas ultramaratonas aquáticas — momento comparável ao quilômetro 30 da maratona no asfalto. Superada essa fase, o corpo entra em estado de fluxo. Marta completou o trajeto entre Inglaterra e França em 12 horas e 43 minutos de nado contínuo.

Recordes mundiais e 193 km no Rio Hudson

Em 2011, Marta retornou ao Canal da Mancha para um projeto de revezamento quádruplo feminino em percurso de ida e volta (Inglaterra-França-Inglaterra). A equipe estabeleceu recordes mundiais da época tanto para o trecho de ida, com 8h22, quanto para a travessia completa de ida e volta, concluída em 18h42.

Anos depois, em 2017, aos 47 anos, a atleta encarou o desafio das 8 Pontes (8 Bridges Hudson River Swim), em Nova York. A prova percorreu 193 km divididos em sete dias de natação contínua descendo o Rio Hudson, com etapas variando de 20 km a 32 km diários sob fortes ventos e baixa visibilidade da água. O suporte de recuperação envolveu eletroestimulação (TENS), hidromassagem e acompanhamento nutricional rigoroso para mitigar a perda calórica extrema.

De atleta a mentora: nova travessia no litoral brasileiro

Atualmente à frente da assessoria Anjos d'Água e ministrando treinos em São Paulo, Marta foca na transmissão de experiência para novos nadadores e atletas em desenvolvimento. O próximo projeto programado reúne a treinadora e sete atletas em um desafio em revezamento entre Ilha Grande (RJ) e Ilhabela (SP), totalizando cerca de 120 km em mar aberto com trocas a cada 30 minutos.

Para Marta, a prática da ultramaratona aquática extrapola os recordes e atua diretamente na construção de resiliência e acolhimento dentro da comunidade esportiva, reforçando a importância de incentivar iniciantes a perderem o receio das águas abertas.

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