Marcas chinesas no Brasil: o desafio de ir além da tecnologia
Igor Santos, da Keep Running, analisa o papel do branding no varejo de performance e a barreira de confiança dos atletas.
Em conversa sobre o mercado de corrida, Igor Santos detalha a trajetória da Keep Running e debate a entrada das fabricantes chinesas no Brasil. O especialista explica por que apenas produto de ponta não garante tração sem trabalho contínuo de marca.
A expansão do mercado de corrida de rua no Brasil transformou o comportamento de consumo e abriu espaço para novas tecnologias de calçados esportivos. Para entender a dinâmica entre inovação, varejo especializado e posicionamento de marca, Igor Santos, sócio e fundador da Keep Running, analisou o cenário das fabricantes chinesas e os desafios para conquistar a preferência de corredores amadores e de elite.
Da garagem ao espaço especializado na Sena Madureira
A trajetória da Keep Running reflete a profissionalização do varejo de nicho no país. Criada no ambiente digital e inicialmente operada por Igor e sua esposa, Bel, a empresa cresceu focada no topo da pirâmide de produtos de performance, produzindo conteúdo técnico sobre calçados e equipamentos para suprir a carência de informação dos praticantes.
Com o aumento da demanda e a necessidade de criar conexões mais profundas com o público, a operação migrou para a loja física na Rua Sena Madureira, em São Paulo. O local foi estruturado como um hub 360 graus para o atleta, reunindo loja, fisioterapia esportiva e treinamento de força baseado em VBT (velocity-based training), metodologia aplicada a atletas de alto rendimento.
O caso 361 Degrees e a barreira do marketing
Ao abordar a presença de marcas chinesas no Brasil, Igor relembrou a experiência com a 361 Degrees por volta dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Embora a marca oferecesse modelos com boa construção e tecnologias competitivas — como a linha de trilha Ortega —, a operação encontrou dificuldades de giro no mercado nacional.
A avaliação é de que o fornecimento de uniformes para voluntários olímpicos não gerou o vínculo necessário com o corredor final. Sem um trabalho consistente de comunicação, presença de prova e construção de narrativa, o produto de alta qualidade técnica enfrentou resistência para se consolidar nas prateleiras brasileiras.
O desafio de marcas como Anta, Li Ning e Xtep
Gigantes do mercado asiático como Anta, Li Ning e Xtep contam com investimentos massivos em pesquisa e desenvolvimento, produzindo espumas responsivas e super tênis com placa de carbono no mesmo nível das líderes globais. No entanto, Igor aponta que o consumidor ocidental hesita em arriscar quantias elevadas em marcas desconhecidas.
Quando um corredor decide investir entre R$ 1.500 e R$ 2.000 em um calçado de performance, o fator confiança sobrepõe a curiosidade tecnológica. A preferência costuma recair sobre modelos já validados socialmente ou consagrados em grandes maratonas, o que exige das marcas chinesas um trabalho de longo prazo com atletas, influenciadores e eventos locais.
A estratégia de valorização no caso Olympikus
Para ilustrar a relevância da consistência de marca, foi destacado o reposicionamento da brasileira Olympikus. A presença contínua em dezenas de provas oficiais, o apoio a comunidades de corrida e o sucesso da família Corre transformaram a percepção do público nacional sobre a fabricante.
O lançamento de modelos de topo de linha em edições limitadas, como a linha de hiper tênis com valor elevado, funciona como uma âncora de marketing e engenharia. Essa estratégia demonstra capacidade técnica máxima, reforça a credibilidade da marca perante o corredor exigente e valoriza toda a esteira de produtos de entrada e intermediários.