Luciano Taccone e Eduardo Braz detalham transição para o Ironman
Do ciclo olímpico ao topo das provas longas, atleta argentino e treinador explicam ajustes técnicos, bike fit e nutrição.
Luciano Taccone e o técnico Eduardo Braz relembram a trajetória do triatleta argentino desde as Copas do Mundo de curta distância até as vitórias no Ironman Brasil. A dupla detalha os desafios na adaptação à bike de contrarrelógio, o ganho de eficiência no ciclismo e a evolução nas estratégias de nutrição intraprova.
A transição da curta para a longa distância no triatlo exige muito mais do que apenas aumentar o volume semanal de rodagem. No alto rendimento, mudar de modalidade envolve reformular a mecânica de ciclismo, reeducar o trato gastrointestinal para suportar cargas maciças de carboidratos e reconstruir a rotina de treinos. O triatleta argentino Luciano Taccone e seu treinador Eduardo Braz vivenciaram essa transformação em detalhes.
Das Copas do Mundo da ITU ao trauma antes de Tóquio
Luciano Taccone construiu uma carreira sólida na distância olímpica (ITU), representando a Argentina nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 e conquistando vitórias em etapas da Copa do Mundo, como em Huatulco. Durante a preparação para o ciclo seguinte sob o comando de Eduardo Braz no grupo do SESI — convivendo com nomes como Manoel Messias e Reinaldo Colucci —, Taccone conquistou a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Lima, em 2019.
O caminho rumo a Tóquio, contudo, foi interrompido por uma sequência de adversidades. Um acidente durante um treino na República Tcheca resultou em fratura de clavícula e limitações na articulação do ombro. Logo em seguida, a pandemia paralisou o calendário de Copas Continentais, restringindo as chances de pontuação para a classificação olímpica. Diante do cenário, atleta e treinador decidiram acelerar a migração para as provas de longa distância e focar no circuito Ironman.
A reconstrução na bike de contrarrelógio e o ajuste biomecânico
Apesar de sempre ter sido um ciclista agressivo nas provas de vácuo liberado, Taccone enfrentou dificuldades para transferir sua potência à bicicleta de contrarrelógio (time trial). A adaptação à nova postura levou cerca de dois anos e gerou sobrecargas físicas que o atleta nunca havia experimentado no formato olímpico.
A virada de chave no ciclismo veio com testes práticos de aerodinâmica e ajustes no bike fit orientados por especialistas, incluindo a adoção de pedivelas mais curtas (150 mm) e uma posição que prioriza a abertura do quadril em vez de apenas buscar uma frente excessivamente baixa. Ao encontrar conforto mecânico sem sacrificar a sustentação de watts, Taccone destravou sua melhor performance no ciclismo, elemento determinante para construir vantagens expressivas no Ironman Brasil.
A revolução na ingestão de carboidratos e o aprendizado em Nice
Outro pilar decisivo na evolução para o full distance foi a cultura nutricional. Se na curta distância o consumo intraprova ficava restrito a pequenas dosagens energéticas, na longa distância o treinamento do sistema digestivo passou a exigir produtos de rápida assimilação e volumes elevados por hora.
A vulnerabilidade dessa logística ficou evidente no Mundial de Ironman em Nice, onde Taccone perdeu duas garrafas de nutrição logo no km 30 do percurso de ciclismo. Forçado a improvisar com produtos fornecidos pela organização nas estações de apoio, o argentino enfrentou desidratação e déficit calórico, o que comprometeu a corrida e culminou em abandono para preservar o corpo para os compromissos seguintes.
Foco no Mundial de Kona e o peso do posicionamento na água
Com o ápice esportivo planejado para as próximas temporadas, o principal foco de trabalho de Eduardo Braz e Taccone está na primeira perna da prova. No cenário atual do Ironman profissional — fortemente influenciado pela dinâmica de blocos compactos e pelo ritmo imposto na saída da T1 —, largar colado no primeiro pelotão da natação tornou-se pré-requisito para disputar o topo no Mundial de Kona.