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Lucas Moraes: como o ciclismo molda o campeão mundial de rally

Piloto brasileiro do W2RC e vencedor de etapas no Dakar revela como a bike fortaleceu sua resistência física e mental.

Primeiro brasileiro campeão mundial de Rally-Raid e vencedor de etapas no Dakar nos carros, Lucas Moraes detalha sua rotina sobre duas rodas. O piloto explica como o treino com medidor de potência e a consistência do ciclismo sustentam sua performance a 170 km/h no deserto.

No automobilismo off-road de elite, a imagem comum é a de máquinas cortando dunas e trilhas a velocidades extremas. No entanto, o motor humano por trás do volante precisa lidar com exigências físicas e mentais que espelham os esportes de endurance mais duros do planeta. Primeiro brasileiro campeão mundial do World Rally-Raid Championship (W2RC) e primeiro piloto do país a vencer etapas na categoria principal de carros do Rally Dakar, Lucas Moraes encontrou no ciclismo de estrada uma ferramenta determinante para elevar sua capacidade atlética.

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A transição das motos para os carros e o reencontro com a bike

A trajetória de Lucas no esporte a motor começou cedo, competindo no motocross a partir dos quatro anos. Uma lesão severa no quadril aos 20 anos — similar à que interrompeu a carreira de Gustavo Kuerten no tênis — exigiu a colocação de uma prótese e forçou a aposentadoria das duas rodas com motor. A migração para os carros foi o passo natural, mas a necessidade de um trabalho cardiovascular de baixo impacto trouxe a bicicleta de volta à sua rotina, intensificada a partir de 2020.

Assistir à histórica virada de Tadej Pogačar sobre Primož Roglič no contra-relógio final do Tour de France de 2020 despertou em Lucas a paixão pelas grandes voltas e pelo treinamento estruturado. Sem o impacto articular da corrida a pé, a bike tornou-se a base de seu condicionamento aeróbico, permitindo sessões longas de treinamento na ciclovia de São Paulo e no interior paulista.

Lucas Moraes: como o ciclismo molda o campeão mundial de rally

Concentração prolongada e telemetria no deserto

Uma etapa de Rally Dakar exige em média 4h30 contra o cronômetro, cobrindo entre 600 km e 700 km diários em terrenos imprevisíveis, com velocidade limitada por regulamento a 170 km/h. Lucas compara o desgaste à dinâmica de uma grande volta ciclística: largadas individuais a cada três minutos como em um contrarrelógio, nutrição rigorosa à base de carboidratos em gel durante trechos de velocidade controlada e hidratação contínua via mangueira acoplada ao capacete.

Assim como na bike moderna, onde a análise de watts dita a cadência e o esforço, o rally atual opera sob forte respaldo de dados. Ao fim de cada especial, a telemetria do veículo — hoje competindo pela equipe oficial Dacia/Renault — extrai centenas de variáveis de acelerador, freio e trocas de marcha, cruzando o desempenho de pilotagem com o desgaste físico aferido nos treinos de ciclismo.

Sincronia de dupla e pontes com o pelotão profissional

A comunicação a bordo é dividida estritamente em 50% para piloto e 50% para navegador. Em 2024, Lucas conquistou sua primeira vitória em estágio no Dakar com uma margem de apenas 18 segundos após 400 km de disputa cega contra o tempo. Essa sintonia exige sangue-frio idêntico ao de um velocista que confia cegamente em seu embalador em um sprint massivo.

A proximidade entre as duas modalidades também gerou conexões curiosas nos bastidores. A ASO, organizadora do Tour de France, é a mesma entidade responsável pelo Rally Dakar. Lucas mantém contato com o fotógrafo oficial de Pogačar, Alen, e dividiu conversas sobre nutrição e preparação com o astro britânico Mark Cavendish, que acompanhou de perto o Dakar na Arábia Saudita.

O valor da consistência e a busca pela glória no Dakar

Além dos treinos diários, Lucas testou seus limites amadores no ciclismo participando do Gran Fondo Giro em Campos do Jordão, encarando as temidas subidas do Paiol e da Campista. Para o piloto, a principal lição absorvida do pedal é o princípio dos ganhos acumulados: a capacidade de manter o ritmo e cavar reservas de energia mesmo nos dias em que o corpo não responde perfeitamente.

Com títulos no Rally dos Sertões, no Mundial de Rally-Raid e vitórias em especiais do Dakar, Lucas mantém o foco voltado para a conquista geral da maior prova off-road do mundo. Em um esporte de maturidade prolongada — onde lendas como Carlos Sainz sênior triunfam aos 60 anos —, o preparo físico construído sobre duas rodas segue como peça-chave de sua longevidade.

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