Kiko Santos: A Jornada Pioneira do Mountain Do no Trail Running Brasileiro
Descubra como o visionário Kiko Santos transformou uma paixão por aventura em um legado de corridas de trilha, do Brasil aos desertos mais extremos.
Neste episódio de Stemma Na Trilha, Sidney Togumi conversa com Kiko Santos, fundador do Mountain Do, a corrida de trail running mais antiga do Brasil. Kiko compartilha sua trajetória, desde a infância humilde e a paixão pela natureza até a criação de um dos maiores circuitos de trail do mundo. Ele detalha os desafios de ser um pioneiro, a evolução do evento e sua visão otimista para o futuro do esporte no país.
No programa Stemma Na Trilha, o apresentador Sidney Togumi recebeu Kiko Santos, fundador e idealizador do Mountain Do, a corrida de trail running mais antiga do Brasil. Kiko, um autêntico “manezinho” de Florianópolis, compartilhou sua inspiradora jornada, que o levou de uma infância simples e paixão pela natureza a se tornar um dos nomes mais influentes no cenário do trail running nacional e internacional.
A Semente do Trail Running no Brasil
A paixão de Kiko pela natureza começou cedo, correndo descalço pelo mato e aprofundando-se no movimento escoteiro. Sua vida esportiva evoluiu, passando pelo windsurf e o parapente, atividades que o fizeram explorar Florianópolis por terra, mar e ar. A grande virada, porém, aconteceu em 1995, durante uma viagem à Suíça. Ao pousar de parapente em Lucerna, Kiko se deparou com uma corrida de trilha, o que ele descreve como “amor à primeira vista”.
Essa experiência o levou a uma pesquisa aprofundada sobre o esporte, que ele percebeu ter um potencial imenso no Brasil. Em 1996, Kiko já havia registrado a marca Mountain Do – nome inspirado em uma seção da revista Runner's World que significava “fazer montanha”. No mesmo ano, ele abriu a Superação Academia em Florianópolis, e entre as atividades oferecidas, já constava o trail running. Por quatro a cinco anos, ele organizou corridas gratuitas para aprender na prática os desafios e as nuances de um evento esportivo, preparando o terreno para o que viria a ser o Mountain Do.
Desafios e Superação: Construindo um Legado
Ser pioneiro no Brasil significava não ter referências. Kiko conta que os primeiros três anos do Mountain Do, que teve sua primeira edição oficial em Florianópolis em 2003, foram de prejuízo. A primeira corrida, com 248 atletas largando, gerou um déficit significativo. A salvação veio em 2005, quando a Fiat se tornou patrocinadora, garantindo a continuidade do projeto. Essa experiência ensinou a Kiko a importância da resiliência e de transformar paixão em um negócio sustentável.
Inicialmente, o Mountain Do adotou um formato de revezamento (quarteto e octeto) para tornar a prova acessível, já que o público de trail runner era inexistente. Aos poucos, as distâncias individuais foram introduzidas. A busca por qualidade e a necessidade de não “travar as trilhas” com excesso de participantes levaram à multiplicação das etapas nacionais, transformando o Mountain Do em um circuito de turismo esportivo com provas em locais emblemáticos como Costão do Santinho, Fernando de Noronha, Campos do Jordão e Chapada dos Veadeiros.
Conquistando o Mundo: Do Atacama ao Saara
A visão de Kiko se expandiu para além das fronteiras brasileiras, impulsionada pelo desejo dos próprios atletas. Em 2012, o Mountain Do realizou sua primeira prova internacional no Deserto do Atacama, no Chile. Kiko relembrou os imensos desafios logísticos de levar tudo do Brasil, inclusive água, para o deserto, mostrando um comprometimento singular com a qualidade do evento. Inicialmente, essas provas eram exclusivas para brasileiros.
Não satisfeito, Kiko buscou novas fronteiras. Em 2013, o evento chegou a Ushuaia, na Patagônia Argentina, no “Fim do Mundo”. A paixão dos participantes por correr na neve inspirou Kiko a se dedicar por seis anos para adquirir a experiência necessária – aprendendo a esquiar e a lidar com alta montanha – antes de lançar a etapa de inverno em 2017, realizada em Cerro Castor. O terceiro deserto conquistado foi o Saara, no Marrocos, também em 2017. Inspirado pela lendária Marathon des Sables, Kiko criou um formato mais acessível para muitos que sonhavam em correr em um deserto, mas não tinham a qualificação ou os recursos para a prova tradicional. Atualmente, o Mountain Do tem presença em três desertos (Atacama, Saara e Namíbia, com um quarto a caminho) e está presente em 12 países.
A Visão de Futuro: O Crescimento Explosivo do Trail
Kiko Santos expressa um otimismo contagiante sobre o futuro do trail running no Brasil. Para ele, o esporte ainda é uma “sementinha” com um potencial de crescimento assustador. Ele argumenta que, com a saturação das corridas de rua em percursos repetitivos, os corredores buscam novas experiências e desafios, impulsionando-os para as trilhas. Observando as tendências em circuitos europeus e provas como a Tarawera Ultramarathon na Nova Zelândia, Kiko prevê uma “explosão frenética” do trail run nos próximos anos.
Sobre a atração de patrocinadores, Kiko reconhece que as corridas de trilha podem não ter o mesmo volume de participantes que as grandes maratonas de asfalto. No entanto, ele destaca que as marcas buscam o “diferente” e a “experiência única” que o trail oferece. Ele citou a Caixa Econômica, parceira há 17 anos, e o Santander, que vem investindo no trail, como exemplos de empresas que entenderam essa sensibilidade e buscam conectar suas marcas a histórias e vivências marcantes.
A Experiência Mountain Do: Mais que uma Corrida
O grande diferencial do Mountain Do, segundo Kiko, é a entrega de uma experiência completa. Isso se reflete desde o kit do atleta, que inclui uma toalha multiuso, neck tube, apito de segurança, squeeze e boné temático da etapa, até a estrutura da prova e a premiação. Kiko relembrou a experiência de Sidney Togumi no Mountain Do Costão do Santinho, evento que se destaca pela grandiosidade de sua estrutura, localizada no maior resort do Brasil.
Apesar dos desafios inerentes à organização de eventos em ambientes naturais e remotos, Kiko enfatiza que a paixão e o cuidado em cada detalhe são o que fidelizam os atletas. Ele usa a analogia de que, quando se faz com prazer, as dificuldades são superadas, e o feedback da comunidade de corredores é o principal combustível para continuar inovando e expandindo o circuito.
A trajetória de Kiko Santos é um testemunho de paixão, visão e resiliência. Sua dedicação em transformar o trail running de um nicho desconhecido em um fenômeno esportivo no Brasil é um legado que inspira e demonstra o potencial do esporte em conectar pessoas à natureza e a experiências inesquecíveis.